sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Diário de um Becadero, 2008/09 (parte 1)


Perspectivas.

Pela primeira vez este Outono acendi a lareira, automaticamente acercaram-se de mim pensamentos que guardava forçosamente adormecidos. O vento frio, esperado e aliado amigo que me trará a minha Dama para mais uma época, já sopra do lado certo!
Não só o frio que já se faz sentir, mas um ou outro relato de um pássaro visto aqui e ali, por um caçador de coelhos, ou um levante repentino numa montaria são o suficiente para se apoderar de mim aquele nervoso miudinho tão saboroso. Os telefonemas seguem-se, os amigos becaderos também eles atentos a todos os acontecimentos vão passando a informação, a net é agora nossa aliada, sites de meteorologia são agora seguidos diariamente, o tempo que faz na Rússia é mais conhecido por nós do que o tempo que faz lá fora na rua neste momento. É tempo de definir jornadas, de ajustar datas e horários, de inspeccionar as armas, trocar pilhas aos Beepers e ajeitar chocalhos.
Esta época, não sei o que esperar!? Ainda não me apercebi das minhas reais expectativas, sabendo que não será uma época fácil, as zonas e a maioria das jornadas estão marcadas, os cães estão bem. Este ano tenho uma cadela nova, a Uva, uma Pointer grande especialista em Galinholas, uma cadela que comprei por estas mesmas características, pois fazia-me falta um outro bom cão de Bicudas, estava demasiado “Faruckodependente” jornada que não o levasse, sentia que tinha deixado em casa algo tão necessário como a arma, o que fez com que caçasse com ele demasiado e também com que desse poucas oportunidades ao Frick, o mais novo. Penso ser algo natural quando se tem um cão melhor e mais experiente que outro.
Os telefonemas vão surgindo, o Baguinho anda já a mexer bem os cães, também ele se depara com o mesmo problema que eu, um cão excelente de Galinholas o Rafael e, outro mais novo que vai ficando em segundo plano.
O Jorge, ligou-me outro dia, andava no campo com os cães, sem arma, de fundo ouvia os chocalhos, aquele som mexe realmente comigo! Anda a mexer cães novos, pois a morte inesperada do Uster, deixou-nos desolados e a ele descalço, sem o seu cão de Galinholas, ele á semelhança de mim e do Baguinho, também era dependente de um cão. Agora é tempo de procurar soluções, de fazer um novo cão á sua altura, não será tarefa fácil, mas nas mãos dele outra “máquina” surgirá, como que vinda do além.
Alguns terrenos foram remexidos, algo que as Galinholas não costumam tolerar, alguns bons terrenos que fiz na passada época jornadas de sonho estavam agora alterados, outros, fui pessoalmente assegurar-me da sua pureza, felizmente que estão imaculados.
A época da Bela Dama curiosamente abriu no meu dia de anos, embora seja apenas o dia 16 o escolhido para a nossa abertura, marcada já com a devida antecedência, pois antes de dia 15 não nos fazemos ao campo, só, se por algum motivo elas se apresentarem em força antes disso.
Desta vez não quero falar em números, apenas espero lances tipicamente belos, capazes de me fazerem passa-los para o papel de uma forma digna, de me tirarem o sono e por muito tempo me fazerem sonhar com eles.
Confesso estar expectante, tenho mais uma cadela forte no pássaro, os terrenos os mesmos mas agora conhecidos, os amigos e companheiros de caça, esses, bem, mudam os cães, mudam as armas, muda muita coisa, mas esses são os de sempre, uns mais preparados, outros desfalcados, mas todos com um sentimento comum, a paixão avassaladora pelo pássaro.
Neste preciso momento ninguém se atreve a dizer, se será um bom ano, os tordos já aí andam em força, as narcejas e marrequinhas também já se apresentaram, uma ou outra galinhola mais apressada também já se mostrou, mas ainda assim não é suficiente para cada um de nós opinar e precocemente projectar toda uma época. Certamente que no intimo de cada um, paira essa duvida, ou em alguns mais velhos e experientes já uma meia certeza, no meu caso apenas uma pura e saudável expectativa, de que pelo menos me vou divertir com os cães!

Dama a quanto obrigas!

Não sei o que me deu, uma jornada marcada á geral e acabei por não ir, dando prioridade a sair para o campo sem arma e com a cadela, pois neste momento acho mais importante estas saídas ao campo, mesmo sem arma, do que uma ou outra perdiz abatida!
A volta até foi rápida mas importante e necessária, pois a Uva não caça de Beeper, algo que sinceramente não creio ser importante, dada a sua forma de caçar, pois é uma cadela extremamente ligada, como não tive outro cão assim! Movimenta-se muito bem em terrenos fechados, aliás é aqui que ela é boa, pois caçou muito neste tipo de terrenos, tojo e estevas não são problema, é contida de andamentos mas muito enérgica, de bom nariz e paragem firme, com uma característica muito própria, rápida a resolver quando em contacto com a caça, não engonha se tiver uma galinhola no nariz, rapidamente resolve e completa o lance com uma paragem muito bonita, a experiencia deu-lhe esta capacidade de autoconfiança necessária para bloquear o pássaro de uma forma rápida sem medo e acima de tudo eficaz.
Tenho muita fé nela, nunca me parou ainda uma Galinhola desde que a tenho, mas parou ao Jorge 5 na época passada e no curto espaço de tempo que caçou com ele, algumas comigo presente, apenas perdizes bravas e codornizes parou já nas minhas mãos.
Resolvi sair com ela neste domingo pela manhã, num local que domino bem, talvez até tivesse a esperança que lá estivesse um primeiro pássaro, não levava arma, mas levava a cadela e era tudo o que precisava para me divertir. A cada passo que dava observava em silencio o terreno, e despoletavam em mim memórias de outros anos, de outros lances naqueles terrenos, o chocalho na cadela fazia a banda sonora adequada aquela projecção de belas imagens que só eu poderia ver. Um pinheiro conhecido onde tive um dos mais belos lances, o montinho nos eucaliptos onde errei uma, o alto onde tive o mais belo lance de sempre, todos estavam lá, imaculados como que peças de um xadrez expectantes pelo outro jogador para dar inicio ao jogo.
A noticia da primeira abatida por um membro do grupo fez mexer com todos nós, uma simples mensagem de telemóvel com uma foto e sem uma única palavra, tinha dado azo a uma manhã agarrado ao telemóvel, primeiro com o protagonista que teve sem ser necessário pedir de contar detalhadamente o lance, depois com o restante do grupo, inevitavelmente este pássaro tinha mexido com todos nós, as projecções qual Zandinga vieram á tona, todos nos abrimos e deitamos cá para fora o que há bem pouco tempo não tínhamos a ousadia de dizer, “já estão cá, vieram mais cedo” foi o que mais se ouviu, mudou-se obrigatoriamente as datas de inicio da época, de 16, passou rapidamente para 9, as perdizes era já algo do passado!
Baguinho sem hesitação mudou a data e, ao seu género disse a frase do dia, “este ano o Jorge começou a descongela-las mais cedo!” um riso característico ouvia-se do outro lado, o Carlos esse engolia em seco assim como eu, pois tinha-mos gozado durante muito tempo com o Jorge por ele não ter um “CÃO de Galinholas” á sua altura, massacramos bastante e, ele já nos levava avanço, sinceramente era esperado! Felizmente não invejamos o avanço nem o que dizemos é com qualquer tipo de maldade, apenas faz parte do convívio entre amigos!
Vamos ver o que esta época nos reserva…


Mais paixão que convicção.
09/11/2008

Finalmente o tão esperado dia da abertura às Galinholas chegou, depois de uma noite mal dormida. A noite tinha sido demasiado longa, o pássaro ainda tem esta capacidade, de me fazer perder o sono qual miúdo pequeno com a ansiedade típica de uma véspera de Natal.
A hora combinada entre mim e o Baguinho era ás 7h no local do costume, infelizmente já lá estavam 2 caçadores de coelhos, conversando entre si enquanto eu me ia preparando e, ao mesmo tempo esperava pelo companheiro, atrasado devido ao nevoeiro. Entre um ou outro ladrar de um podengo ouvi algo que me animou bastante, “sabes na quinta feira um rapaz errou aí uma Galinhola” era tudo o que eu queria ouvir, a mensagem foi passada logo por telemóvel ao Baguinho, talvez isso o apressa-se mais um pouco, mais um carro com 2 Coelheiros começava a tirar-me do sério, era apenas aquela ansiedade típica de abertura a falar mais alto.
A manhã estava linda e convidativa a uma jornada ao pássaro, tivemos por bastante tempo a companhia agradável do nevoeiro, que dava uma cor cinzenta e sinistra ao pinhal.
Começamos a jornada pelo local de sempre, Baguinho à esquerda e eu à direita, tudo voltava de novo, os cães do companheiro Rafael com Beeper e chocalho e Duke só de chocalho, o meu como sempre sem Chocalho mas com o Beeper, assim começamos a bater terreno todo ele muito duro, plainas e safão ali fazem sempre parte da indumentária, o tojo a isso obriga, imagine-se os cães limpos de acessórios, vestidos apenas com o que vieram ao mundo, dureza pura, ali a paixão suplementa a dor!
Pouco depois ouço um “olhaaa”, que se escapara levemente da boca do Baguinho, indicando a ele próprio a certeza de um primeiro pássaro. Virei-me e vi uma imagem unica, no meio do nevoeiro vejo um vulto, uma silhueta de uma Galinhola a voar á frente do Duke que vinha a fazer o rasto dela, pouco depois vejo-a cair, aí estava a primeira da época vista e a primeira da época abatida pelo Baguinho, cobrada pelo Faruck a pedido do Companheiro, pois os cães não estavam a dar com ela, seguiu-se um aperto de mão característico selando dignamente o lance e, a observação detalhada da ave, pequena, de média idade e bastante magra, normal em Galinholas de entrada que acabaram de fazer 4.000 ou 5.000 km.
A jornada seguia, esta galinhola ao abrir do pano deu-nos alento e expectativas, pois poderiam estar lá mais uma ou outra.
A jornada de igual apenas tinha a dureza do terreno, duríssimo a cada passo que dávamos. Mais á frente vejo o Faruck a fazer um rasto muito compenetrado, aquela cauda a dar daquela maneira fazia-me lembrar algo conhecido, acerco-me e ele fica parado, o Beeper toca, os corações despertam, mas nada, o que ali estava já tinha saído, talvez um coelho quem sabe.
Um ou outro mato mais alto em terrenos todos eles muito iguais aguça-me a imaginação, o cão esse sabe bem o que estes matos significam e sem o mandar entra e passa tudo qual aspirador a pente fino, limpa todos os cantos com aquele nariz potente, mas nada, é demasiado cedo, apenas a paixão de caçar alimentada por abates e vislumbres de companheiros nos últimos dias antecederam a abertura.
As horas iam passando, eu qual cego, perdido naquele pinhal envolto em nevoeiro, apenas guiado por Baguinho que, qual guia turístico dava-me a historia detalhada do local a cada mancha que fazia-mos, “este é o local do salto de peixe” “este o daquela errada”, “aqui foi onde lhe levantaram as duas”, para nós ali não há nomes próprios, cada local tem a sua historia e um pormenor mais significativo de uma ou outra jornada dá-lhe o nome de baptismo.
Depois já perto do carro, vejo o Faruck fazer um rasto, o Baguinho vê o memo que eu, o Beeper toca, corremos os 2, depois impróprio para cardíacos, sai um melro, olhamos um para o outro e sorrimos.
Era hora de ir embora, os cães após 6 horas em terrenos daqueles estavam exaustos e doridos, apenas um pássaro abatido pelo companheiro, merecidamente, pois “era dele” aquele pinhal e, para lá estar apenas uma ave, é justo que seja ele a abate-la, outros dias com mais pássaro chegarão, para primeira jornada tão precoce até nem foi mau.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Beeper, como e porquê?

Muitas são as vezes que nos deparamos com as dificuldades dos nossos cães em caçarem com o beeper, não andarem e refugiarem-se nas nossas pernas, desfazerem a paragem quando o beeper toca e, deslizarem á ordem do beeper a cada toque deste são problemas comuns no inicio da utilização do beeper pelo cão.
Resolver estes problemas e ultrapassa-los nem sempre é uma tarefa fácil, muitas vezes o carácter de um cão dita o sucesso ou o insucesso ou a maior ou menor dificuldade em consegui-lo.
A primeira vez que um cão sai para caçar com o beeper pode estranha-lo, comuns são as vezes de um cão nem liga á coleira que agora transporta ao pescoço, porque tem um carácter forte e descontraído e não lhe faz a mínima diferença caçar com ela, embora muitas vezes as primeiras paragens com beeper em determinados cães sejam complicadas, a grande maioria de inicio tem a tendência de desmanchar a paragem, deslizar ao som de cada beep, ou mexer a cabeça. Outros exemplares mais desconfiados ou sensíveis de carácter sentem-se incomodados e recusam-se a caçar com o beeper e, não nos saem das pernas. O que fazer nestes casos, como se deve iniciar um cão a caçar com o Beeper, para que não nos deixe ficar mal a quando dum belo lance com Galinholas, há truques e dicas, pequenos segredos que possamos utilizar para meter o nosso cão a caçar com o Beeper?
No inicio da utilização deste pequeno acessório o cão pode-se deparar com uma incógnita e fazer uma associação errada, alguns cães que são treinados com o colar eléctrico e, que por má utilização do mesmo rejeitam caçar de colar, mas caçam normalmente sem este, por vezes e dadas as semelhanças físicas do Beeper e do Colar, os cães ao senti-lo ao pescoço automaticamente sentem o beeper como sendo um colar e, assumem a mesma postura de medo, refugiando-se e não andando.
Neste caso não passa de uma associação errada por parte do cão, que dará mais trabalho a resolver, teremos de tentar incentivar o cão a andar com o beeper, tentamos mete-lo em zonas com muita caça, coelhos e perdizes, para que desperte os seus instintos e para que abra e perceba que aquilo não é um colar, embora por mais tentativas que façamos muitas vezes o trauma é grande e não tem solução, é então nessas ocasiões que recorremos a caçar apenas de chocalho, optando por não martirizar mais o animal.
Animais um pouco menos sensíveis, que apenas reduzem o andamento ao sentir o colar, que o consentem apenas apresentando um ligeiro desconforto e desconfiança, a receita é a mesma, muita caça até que o cão se habitue e não ligue ao que transporta consigo. É então altura de ele trabalhar com o colar, por norma não fazemos a estreia do nosso cão com beeper em jornadas de Galinholas, este é um trabalho que habitualmente é feito fora de época, em treinos periódicos com o nosso cão, a preparação antecipada do nosso cão e o limar de arestas não deve ser feita em pelo acto de caça, para não perdermos lances bonitos, é algo que nos ajuda na altura de defeso a suportar a longa e necessária paragem, deixando-nos na mesma ligados ao cão e á ave, preparando tudo criteriosamente de maneira a nos apresentarmos a ela na melhor forma possível.
O que fazer então, como habituar o nosso cão a suportar o som do beeper durante a paragem?
Por norma teremos de fazer uns treinos com caça e abate, uma encenação real do que será o futuro, o faisão por ser uma espécie que habitualmente dá muita paragem aos cães, é a espécie escolhida, embora perdizes sejam também possíveis de utilizar. O primeiro passo é começarmos com jornadas sem caça ou pelo menos sem abate, onde é colocado o beeper ao cão em modo de “chocalho” ou seja, programamos o nosso beeper de forma a este tocar 5 em 5 segundos, desta maneira o cão mesmo em andamento e por intervalos periódicos de 5 segundos ouve o beeper, assim vai-se habituando ao som que acabará aos poucos por lhe ser familiar. Utilizando este método o cão mesmo quando fica parado já há muito que estava a ouvir o som do beeper, o que lhe dará uma outra tranquilidade quando trabalha a emanação e pára o faisão, pode na mesma sentir-se desconfortável nesta nova situação, pois em mostra o beeper toca 2 em 2 segundos. É aqui que entramos nós! Podemos e devemos então acalmar o nosso cão, a situação é por vezes idêntica ás primeiras paragens de um cachorro, o som do beeper, dá-lhe impulsos de entrar á caça, é hora de o segurar, á voz, com umas festas no dorso, ou até mesmo em casos que a isso careça, atrela-lo.
A partir daqui o cimentar dos conhecimentos estão directamente ligados a uma palavra que está implícita em qualquer treino de um cão de Parar, experiencia. Os muitos e variados lances vão fazer com que o cão se habitue a caçar com este magnifico e útil acessório, ao ponto de o ignorar ou até em muitos casos também o cão o utilizar e ser-lhe também a ele cão um instrumento útil na sua jornada.
Pode parecer estranho e desadequado dizer-se que um cão utiliza e faz-se valer de um aparelho electrónico na caça. Mas, é de todo verdade! Muitos cães sabem como utilizar este aparelho, sabem que é este aparelho que o liga á arma em terrenos fechados, sabem esperar pelo caçador sempre com o beeper a tocar, ao ponto de apenas deslizarem quando sentem a arma perto.
Muitos são os casos de cães ficarem em Patron apenas por ouvirem o beeper, saberem o significado do cantar do beeper, bem como em outros casos e estes mais chatos, cães pendurarem-se no beeper e, quando o ouvem correm qual atirador ao seu som e muitas vezes para se pendurarem no trabalho de outro cão. Outro exemplo é um cão que conheço, que se alarga bastante e por vezes desliga-se completamente do caçador, mas imobiliza-se propositadamente até o beeper tocar para que o seu dono o encontre, depois de o ver volta a caçar.
São todos estes pormenores que nos apaixonam pelo complexo mundo dos cães.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tempo de migração.

Nesta altura do ano é já tempo de nós caçadores falarmos uns com os outros a fim de sabermos das perspectivas de cada um para a época que se avizinha. Será boa, será má, criaram bem, vêm cedo, vêm tarde? Estas e outras questões invadem a mente de um Becadero.
É habitual ouvir-se, “este é um ano de chuva vai haver pássaros” mas nada mais longe da verdade! Aquilo que se julga vulgarmente, que um terreno húmido com uma boa manta morta é propicio para chamar mais aves, mas não é assim, a nossa meteorologia interna nada significa na migração e no instinto migratório da Galinhola, pois ela sai com o intuito de fugir ao frio extremo que se faz sentir nas suas zonas de nidificação, as Galinholas iniciam as suas migrações sem saberem as condições que vão encontrar nos locais finais onde vão passar o Inverno a milhares de Km de onde iniciam a viagem, partem com uma rota defenida, mas que pode por vários factores entre eles as direcções e intensidades dos ventos ser alteradas. Portanto o que leva a serem bons anos de Galinholas não é mais que a sorte das condições no momento das viagens se proporcionarem de forma a empurrarem-nas para cá e, ter sido um ano favorável de procriação, as condições dentro do país, apenas leva a uma maior ou menor distribuição interna, pois é comum haverem depois de chegadas cá, migrações internas onde se distribuem pelos locais de crença.
Sem qualquer estudo cientifico que assegure e comprove esta ideia formada, podemos dizer pela experiencia de muitos caçadores especialistas que, as Galinholas, gostam mais de fazer as suas deslocações migratórias nas noites de lua cheia, é comum dizer-se que a lua Nova em Novembro bem como as 2 noites que antecedem a lua Nova até ás 2 noites depois, são propicias para alas viajarem, desde que coincida com o final do mês.
Talvez a notória influência da Lua nas mudanças do tempo seja também ela preponderante no clique necessário para a Galinhola se fazer ao caminho.
Muitas são as vozes que acham que as noites escuras sem lua, ou demasiado escuras pelo mau tempo, não favorecem as deslocações destas aves, é aí que se sabe morrerem muitas Galinholas, nas suas necessárias migrações anuais, os postes de alta tenção, as Torres e edifícios altos, redes e construções humanas podem tornar-se pouco visíveis e fatais para a ave, por vezes são avistadas aves aparentemente esgotadas em parques urbanos de grandes cidades, talvez guiadas para lá pela luz nocturna típica e visível a quilómetros.
As aves começam as sua migrações desde meados de Setembro, as aves nascidas na Rússia não ficam lá a passar o Inverno rigoroso que se faz sentir, optando por se deslocarem para zonas ainda que frias mas mais amenas, propicias a albergarem tão belo ser.
Durante o mês de Outubro a Finlândia e os países bálticos começam as ondas de frio que despertam os impulsos migratórios das aves provocando abandonos em massa da região, consoante os ventos as aves vão-se dispersando desde a França, Itália, Croácia, Espanha, Portugal, Marrocos e Ilhas Italianas, Espanholas e Portuguesas entre outras, a dispersão das aves tem muito a ver com as condições climatéricas encontradas na altura da viagem, os ventos favoráveis de norte, nordeste são os mais apreciados pelos Portugueses, pois são os que nos trazem maior numero de aves.

Em verde ou laranja?

Uma indecisão que para muitos não se coloca, especialmente ao tradicional caçador adepto do camuflado, alguns trajes a cheirar ainda a África, velhinhos ainda do tempo do Ultramar repletos de histórias e de outras batalhas que não com perdizes, mas será este tipo de vestuário, o mais indicado na caça de salto e em especial na caça ás Galinholas?
É talvez aqui que esta caça tão envolta em misticismos se desvincula da tradição e da etiqueta ancestral que a caracteriza, não por uma evolução lógica, mas sim por um cuidado e preocupação com um aspecto muito importante, a segurança, o caçador de Galinholas sabe melhor que ninguém da importância destes trajes com cor, com o tempo e muitas vezes com os sustos aprendeu a lição e, é agora tempo de uma nova moda que vai muito além da vaidade e das tendências do momento, é tempo de segurança e eficiência.
É certo e sabido que os terrenos característicos de Galinholas são propícios a acidentes, as vegetações altas e fechadas de estevas e outros arbustos nascidos e
m pinhais homogéneos e compactos, ou eucaliptais com coberto de mato serrado potenciam acidentes. A roupa camuflada ou até os verdes sóbrios são de facto muito comuns até em muitos caçadores de Galinholas, mas sem a menor dúvida devem ser evitados. Nos tempos que correm há cada vez mais, uma maior consciencialização por parte dos caçadores dos perigos inerentes a este desporto, se uma arma é algo deveras perigoso, uma arma de Galinholas e os típicos cartuchos são ainda mais, a maior dispersão do chumbo em canos e cartuchos especiais são um perigo real, aliado a isto uma vegetação fechada e um caçador que se evapora no ambiente são factores mais que suficientes para um acidente.
É importante neste tipo de terrenos sermos vistos e vermos o companheiro ou alguém que por ali ande, para sermos vistos cabe a nós proporcionarmos isso aos outros, como? Vestindo-nos com roupa de cores contrastantes com o ambiente que nos rodeia, o laranja é o mais comum. Um simples colete e um chapéu laranja são o suficiente para evitarmos um acidente perigosíssimo, hoje em dia e com o aumento das novidades e produtos pensados e desenhados para colmatar determinadas lacunas e preencher certos requisitos, fundamentaram muitas e novas descobertas e invenções por parte dos fabricantes de artigos de caça, existem agora no mercado acessórios de extrema utilidade, falo dos inúmeros óculos de protecção disponíveis actualmente no mercado, bem como da diversa roupa de cor laranja que neste momento podemos adquirir a preços acessíveis e de elevada durabilidade. Variadíssimos modelos e padrões mais ou menos do nosso agrado estão á venda em qualquer boa espingardaria, um colete e um chapéu laranjas são mais que suficientes para indicarem a nossa presença na maior parte dos cenários onde actuamos, são também um descanso para o nosso companheiro que rapidamente nos visualiza num terreno todo ele igual e consegue assim fazer mais descansado um tiro já de si complicado.
Sou da opinião que a roupa laranja deveria ser obrigatória na caça de salto, não só ás Galinholas, mas a todas as espécies que caçamos, não creio que uma Perdiz, uma Lebre ou uma Codorniz deixe de ser abatida por vestirmos um colete, ou até mesmo um chapéu Laranja, mesmo que uma ou outra perdiz voada se pudesse desviar, que significado poderia ter isso se um dia este mesmo colete nos salvar a vida!?
Pessoalmente defendo que óculos e roupa de cor contrastante deveriam por lei ser obrigatórias na caça de salto, infelizmente ainda é tempo dos olhares desconfiados e de gozo, quando nos cruzamos com um caçador já de alguma idade e de ainda mais velha mentalidade ao verem-nos de óculos protectores e roupa laranja, é este tipo de mentalidades que um dia estou seguro serão algo do passado, ao vermos caçadores Americanos percebemos que tudo não passa de uma questão de tempo, o que hoje é moda nas Américas amanhã é na Europa, embora seja esta uma moda que deverá chegar rápido e para ficar, dada a sua importância na segurança de todos nós.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Tecnologia ou tradição?





Chocalho ou beeper? Esta é uma pergunta legítima para quem se inicia neste tipo de caça, embora seja também uma pergunta comum mesmo para os caçadores mais experientes em determinadas situações.

O chocalho.
Este é um acessório ancestral na caça ás Galinholas, há muito que o caçador dotado de inteligência encontrou uma forma de mesmo sem o ver, acompanhar o seu cão e saber a sua localização em terrenos fechados, onde a vegetação e urografia do terreno são aliados da presa e não do predador.
O chocalho é um acessório simples que, tem no cão uma função não tão distante que tem no pescoço de uma ovelha, ou seja, indicar-nos a sua posição, ao cintilar o chocalho dá-nos a percepção de onde está o nosso cão, ao calar-se, esse momento mágico, o chocalho silenciosamente como que em segredo diz-nos que o nosso cão está parado, é aqui que o chocalho peca! E quando não o ouvimos calar? Por este mesmo motivo é que houve a necessidade de se inventar o beeper. O chocalho dá-nos então indicações preciosas sobre os movimentos do cão, diz-nos também quando se silencia, que o cão entrou em mostra, mas quando por falta de atenção ou por qualquer motivo por momentos nos desligamos do seu som, ele não nos indica onde está exactamente o nosso cão parado com uma ave, este pequeno grande detalhe é imperativo na obtenção ou não do sucesso no lance.

O Beeper.
Este pequeno e precioso aparelho electrónico veio colmatar as lacunas óbvias do chocalho. Por um lado este aparelho facilita-nos no momento mais importante do lance, a paragem. Ao contrário do chocalho que se cala quando o cão entra em mostra, este por sua vez toca nesta situação, e enquanto o cão estiver parado ele toca, suportando até deslizes controlados avisando-nos da situação.
E quando o cão está a caçar, em movimento? Aqui podemos conjugar estes dois acessórios, beeper e chocalho, os dois complementam-se na perfeição. Embora a maioria dos beepers tenham também a função de chocalho disponível com um simples toque num botão e, além de tocar quando o cão para, toca também 5 em 5 segundos com o cão em movimento, substituindo assim o chocalho. Pessoalmente quando necessito de “sentir” o cão prefiro o chocalho junto com o beeper, apenas por questões de gosto pessoal, por gostar de ouvir o cintilar do chocalho.

Chocalho sim ou não?
Para muitos esta pergunta não tem razão de ser, um dia de galinholas sem chocalho não funciona. Mais uma vez pessoalmente penso que o chocalho é útil sim, mas doseado. Não sou adepto do chocalho em todas as jornadas, muito pelo contrário. Talvez um ou outro levante inesperado antes de eu e o cão nos acercarmos de uma ave me tenha levado a ponderar na sua utilização.
Uma Galinholas de fim de época, ou uma ave que antes de chegar a Portugal, e que foi perseguida em França por um cão Bécassier, ou em Espanha por um cão Becadero, talvez, digo e sublinho, talvez conheça de cor o significado do som do chocalho, optando por levantar mal ouve este som familiar.
Chocalho para mim o menos possível, agora beeper, sempre. Estas são formas muito pessoais de ver este assunto, outras formas de outros caçadores são igualmente válidas desde que o final seja idêntico.

A importância da arma e do cartucho.

A Arma.

Poderíamos pensar que a utilização da arma que mais estamos adaptados e, a qual nos dá os melhores resultados jornada após jornada nas perdizes ou nos tordos, será sem duvida a escolha perfeita. Talvez teoricamente as coisas vistas desta forma tenham lógica, mas nem sempre ou até mesmo atrevo-me a dizer que na maioria das vezes esta formula não resulta.
A arma neste tipo de caça tem de ser ou pelo menos é-o em muitos dos casos também ela á semelhança do cão, uma especialista, por norma o caçador de Galinholas, ou aquele que faz desta caça algo mais incisivo, onde gasta mais da sua curta época venatória, sabe que a arma aqui faz a diferença. A arma que por norma nos da tantas alegrias nas sortidas ás perdizes, aqui não é aquela companheira fiel que estamos habituados, os habituais 71 cm de cano que nos permitem fantásticos abates nas perdizes, pombos e tordos entre outros, são nas Galinholas muitas vezes inúteis.
Os terrenos demasiado fechados, a dificuldade de progressão e de Swing, os tiros rápidos em grande parte de chofre a aves que saem tão rapidamente que são abatidas pelo dedo e não pelo cérebro, requerem uma arma especialista, uma arma curta, manejável de fácil encare.
Por norma foi adoptada pelos Becaderos, o cano 61, os choques são frequentemente cilíndricos, ou em alguns modelos de algumas marcas estriados. Será que é assim tão necessário este grande número de requisitos? Para o caçador normal que faz da caça ás Galinholas um simples divertimento esporádico, onde não faz mais de 3 ou 4 jornadas por época, não se justifica uma arma especial, mas para aqueles que fazem desta caça o ponto alto do calendário venatório, para muitos que apenas esta espécie lhe dá alento para saírem ao campo, onde sempre que podem estão no encalço de bicudas, uma arma especial faz toda a diferença. Canos a rondar os 61 cm, cilíndricos num corpo manejável é de extrema importância para se alcançar o sucesso naqueles lances mais complicados nos terrenos mais típicos.



Justaposta, sobreposta, ou automática? Este para muitos é um dilema, mas os caçadores de galinholas, ou pelo menos e talvez para a maioria não é complicado, pois o carisma e misticismo que a Dama oferece requer por etiqueta, chamemos-lhe assim, uma bela justaposta. É contudo certo que muitas vezes apenas há espaço e tempo para um único disparo, o segundo poucas vezes é dado comparativamente com outro tipo de peças de caça, o que nos leva a pensar na efectividade do terceiro tiro de uma automática. Na realidade e na prática devemos caçar com a arma que nos transmite confiança e com a qual nos sentimos bem, independentemente das suas características.



Calibre 20 ou 12? Este assunto é pouco discutível, é certo que os modelos de Calibre 12 tem uma grande vantagem, mais e melhores cartuchos disponíveis no mercado, cargas deste calibre especialmente concebidas para esta disciplina estão largamente difundidas no mercado, ao contrário de cargas especial Galinhola em calibre 20, além da pouca escolha de cargas, há também o factor (mãozinhas) ou seja, para se ter sucesso com este calibre há que ser melhor atirador, pois este calibre requer atiradores mais capazes, o tiro por melhores armas, cargas e choques que se utilizem, sai sempre mais fechado, o que aqui não é de todo recomendado, embora haja e conheça atiradores com armas de calibre 20 que caçam ás galinholas com enorme sucesso, como vantagem deste calibre temos a diferença de peso na arma, pois por norma uma arma de calibre 12 pesa 3 Kg e uma de calibre 20 pesa 2.7 Kg, ao fim de uma jornada faz diferença. Cabe a cada caçador saber onde se inclui como atirador e caçar com o que acha confortável e eficaz.

As cargas.
Desde há muito que as cargas para esta espécie são diferentes, já la vai o tempo que os caçadores carregam as suas cargas de forma diferente para determinado tipo de espécie a abater, e a Galinhola não é diferente. A industrialização e evolução desta originou novos produtos e novas técnicas, o caçador deixou de carregar cartuchos em casa e as fábricas começaram a carregar cartuchos com buchas de plástico, que em nada favoreciam a dispersão do tiro, essencial nesta modalidade. Um novo mercado e capacidade financeira global aliado ao consumismo fizeram as empresas repensarem nos seus produtos e lançarem para o mercado novas cargas especiais capazes, de suprimir as necessidades do mais exigente dos caçadores. Aparecendo assim não só para a galinhola, mas para muitas das espécies, cartuchos concebidos especialmente para uma determinada espécie.


Nas Galinholas não há a necessidade de chumbo grosso, pois a delicadeza da ave faz com que qualquer baguinho a atire ao chão, o chumbo 9 ou 10 são os mais utilizados. Há a ideia que um chumbo mais grosso tipo 5, é o ideal, pensando que estes furam as folhas e passam pelos ramos até atingirem a ave, há quem utilize este tipo de cargas, embora poucos caçadores mais experiente as utilizem, dando preferência a cargas especiais de chumbo miúdo.
Por norma as cargas são entre 34 e 40g, muito chumbo mas carregados com pouca pólvora, para que o tiro abra o mais depressa possível, ajudados na maioria das vezes por buchas de feltro, de forma a conseguirem um tiro uniforme que abra rapidamente.
No mercado consumista este tipo de cargas é um bónus para quem compra e para quem vende, havendo já disponíveis cargas com chumbo quadrado e cargas com chumbo de vários calibres 9 e 10 num mesmo cartucho tudo para satisfazer as necessidades de becadero mais exigente, claro que estas cargas são de elevado preço, talvez a necessidade e a especialidade contribuam para os preços verdadeiramente astronómicos destas cargas aparentemente simples.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O Cão de Galinholas.

Um generalista, um especialista, o que deve ser um cão de Galinholas, quais as características de um chamado “Super Cão” de Galinholas, quais as características que o podem diferenciar dos cães normais, será um Cão de Galinholas de topo apenas capaz de caçar à Dama, ou também ele é um generalista, são estas e outras perguntas que muitos caçadores se questionam.

Quando falo de um cão de Galinholas, obviamente falo sempre num Cão de Parar, das possíveis e várias maneiras de caracterizar um Cão de Galinholas, a minha é obviamente muito pessoal, diferente mas talvez tão igual a muitas outras, caracterizadas por outros apaixonados por este grande protagonista, o cão.
Um cão de Galinholas tem de ser um sentimentalista, também ele, um apaixonado, um artista e acima de tudo um grande especialista.
Um Cão de Galinholas, será um feliz eleito quem sabe escolhido através de nós por uma mão divina, que o separa dos demais para ter uma vida repleta de emoções e jornadas de sonho.
Desde cachorro que alguns cães das mais variadas raças demonstram algumas características que nos levam a sonhar e a projectar num determinado cachorro um futuro promissor como Cão de Galinholas, talvez um olhar mais atento, uma brincadeira descuidada no campo nos faça despertar a impressão que temos ali algo diferente capaz de vir a ser o nosso futuro companheiro com que sempre sonhamos, ou o mais recente aprendiz da mais bela disciplina da caça, irá quem sabe igualar as prestações do nosso velhinho companheiro, que por nosso egoísmo ou falta de sucessor lhe prolongamos a carreira.
Cuidamos dele como se do Enviado se tratasse, treinamos sempre que podemos, ou investimos num treino com um profissional, muitas vezes fazemos por ele o impensável, mas sempre com a forte convicção que será ele o digno sucessor.
O que esperamos dele então? Esperamos que seja um cão impetuoso, dinâmico, mas ao mesmo tempo calmo e concentrado na presença da ave, dedicado e delicado na abordagem, mas forte no campo, de excelente nariz, pois muitas são as vezes que tem de trabalhar sem o precioso auxilio do vento ou com ele pelo lado menos favorável, o sentido de adaptação tem de ser elevado.
Um cão sem medo de entrar em matos fechados, capaz de nos trabalhar uma bicuda e bloqueá-la de forma segura nos locais mais inóspitos do bosque e, depois cobrá-la em zonas complicados, onde na maioria das vezes não a vê sequer levantar e muito menos sabe onde caiu, sair para cobrar na direcção do tiro é um factor importante e determinante para reavermos a nossa peça abatida, este aspecto importante terá de ser treinado e aperfeiçoado na altura devida.
O treino não é de todo diferente dos demais cães de Parar, apenas mais incisivo em zonas mais fechadas há semelhança do que irá encontrar em terrenos típicos onde a Dama domina.
As perdizes são um importante passo, as codornizes é discutível, isto porque obrigam e ensinam a seguir de rasto e nariz no chão, e permitem mostras muito perto, desadequado às Galinholas, mas quando passa para o nível mais exigente, esta ou estas espécies já são um passado na sua aprendizagem onde tirou o doutoramento com distinção.
O nível seguinte é caçar em zonas fortes e de preferência em presença do maior número de Galinholas, para que ganhe a máxima experiência e comece a entrar no espírito da nova disciplina e entregue o seu coração à Dama.
A partir daqui a cada lance o nosso cão melhora a olhos vistos, deixa-se dominar pela paixão e entrega-se de corpo e alma em cada lance, rejubila de alegria sempre que lhe colocamos o chocalho, nós sentimos que por fim fomos recompensados pela dedicação e esforço que empreendemos.
Estas doces palavras são a síntese do que teoricamente é um cão de Galinholas, mas nem sempre um cachorro que nos pareceu promissor será no futuro um bom cão de galinholas, mas se é assim tão complicado conseguir-se um bom cão de Galinholas, qual é o segredo?
Não sei se há um segredo para um bom cão de Galinholas, talvez haja uma potencialidade, uma característica comum a todos os bons cães de Galinholas, uma delas e que é determinante, é a capacidade de entrega, pois um bom cão de Galinholas tem de ter uma entrega e uma paixão acima da média, as várias jornadas longas e duras sem a presença de uma bicuda apenas são suportadas por cães muito apaixonados e cientes ao que andam, têm de ter a força de caçar com o mesmo empenho de manhã à noite, palmeando terrenos duros sem sentir uma única bicuda, mas sempre com a mesma determinação, empenho e acima de tudo concentração, num momento inesperado pode sentir uma emanação e tem de conseguir calmamente trabalha-la e completar o lance com uma bela paragem.
Resumindo então, quais os pontos principais que deve ter um cão de Galinholas, força de vontade, a paixão pela ave. Muitos de nós temos a consciência correcta que há cães verdadeiramente apaixonados pelas Galinholas, cães que fazem também eles desta ave a sua escolha e a sua caça, muitos até que são medianos cães de codornizes e de Perdizes, mas que aqui se superam. Portanto a Paixão e concentração constantes são os pontos principais, dadas as características da disciplina.
Será um cão generalista pior que um cão especialista?
Não sei se esta pergunta tem razão de ser, mas a resposta é simples, para o caçador comum um cão generalista é tudo, pois completa-o e complementa-o, para um caçador também ele especialista, um cão tem ou deve também ele ser pelo menos nas Galinholas um especialista, os abates são reduzidos, os lances são poucos comparativamente com outras espécies e, um cão especialista faz a diferença, encontra pássaros onde outros nada sentem, vai buscar uma galinhola naquele cantinho que outros cães não se atrevem a lá ir, é a diferença mais visível, muitos cães não têm a capacidade de entrega para fazer um dia inteiro a caçar nas estevas e tojos sem sequer sentir nada, pouco depois esmorecem abrandam o ritmo e, quando surge a oportunidade de um lance tão esperado, estão desconcentrados e metem as galinholas em fuga, muitas vezes sem sequer o caçador se aperceber. Por isso confiar no cão é algo fundamental, saber que às 8 da manhã ou às 4 da tarde se o cão der com um pássaro tem a capacidade de o trabalhar e dar à morte ao seu companheiro. Aqui não são permitidos individualismos, quer por parte do cão quer do caçador, é acima de tudo um trabalho de equipa, os dois têm de saber que são ambos importantes para haver um cobro, o cão deve ser independente o suficiente, mas saber no meio de tanta independência onde está a arma, trabalhar para ela, e o caçador deve saber ler os sinais do cão, mas isso são outros predicados que ficam para outro artigo.
Aqui não são aceites cães de fraca paragem, de faca entrega, de fraca paixão, e em especial desligados da arma e que tenham dente duro, pois a delicadeza da ave e o facto de se comer as entranhas e destas serem uma iguaria, carece-se de cães de dente doce e que cobrem magistralmente.
Estes são alguns pontos de elevada importância num Cão de Galinholas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Diário de um Becadero. 2007 (parte 2)

17-01-2008

Em francês.


O francês dominava o dia, pois esta semana estava cá um grande Amigo do Jorge, o Sr. Michel Vassenet e a sua esposa, pessoas educadas, ambos grandes viciados em caça, cães e tudo o que os rodeia, para mim o Sr. Vassenet é o “guru” dos Pointers, a minha raça preferida de cães, ele tinha conduzido e ganho variadíssimas provas com esta magnifica raça, várias vezes Campeão do Mundo, criador reconhecido e proprietário do famoso canil La Rue Fleurie, onde todos os meus cães têm origens. Foi com muita alegria que ouvi da boca dele, grande conhecedor da raça, palavras de felicitação pelo meu cão, “le Petit Pointer”, que eu tinha emprestado uns dias ao Jorge e que o Sr. Vassenet escolheu como seu companheiro de caça nestas pequenas férias. Tinha sido uma semana em cheio para o cão, em brincadeiras diziam que “le Petit Pointer”, Faruck tinha feito vários CACIT sobre Galinhola, termos técnicos no meio cinotécnico, (CACIT a nota mais alta em competição), pois o cão tinha feito um trabalho fantástico durante essa semana, como que se mostrando ao Sr. Dos Pointers que é um Sr. cão, para mim um apaixonado pelo meu companheiro eram palavras destas vindas de quem vinham que me enchiam o ego.
A jornada começou cedo, claro que o cedo nas Galinholas nunca corresponde no cedo das perdizes ou patos, é para nós por volta das 9h. a zona escolhida era um pequeno bosque de pinheiros bravos, novos e fininhos, muito juntos com estevas e tojos pelo meio que faziam uma habitat perfeito para a Dama, e onde eu dias antes tinha errado a primeira Galinhola parada pelo Frick.
Agora novamente nas minhas mãos, Faruck trazia-me de novo uma outra qualidade e certeza e, rapidamente dá com a tal Galinhola que andava a monte há 3 ou 4 dias, um tiro longo e estranhamente nenhum cão dá com ela, e não eram cães quaisquer, era a elite dos cães de Galinholas, ZAZA a cadela Braco Almão que estava também emprestada, talvez a melhor cadela de sempre de Galinholas em Portugal, Uster grande cão de Galinholas, Faruck, Anita uma Setter muito experiente, qual deles o melhor, é como ter em campo Figo, Cristiano Ronaldo, Eusébio e Futre, algo assombrante num mesmo jogo.
Mas estranhamente todos lhe passaram por cima, e fui eu que a cobrei ao ver a galinhola dar à asa no chão, é assim também vi o figo e os outros falharem grandes penalidades e não deixaram de ser bons por isso.
Decidimos então ir ver o “val mistério” uma zona de pinhos e estevas, palco de encontros abundantes e lances e abates fantásticos em outros anos com o Jorge. Para mim o nome não poderia estar mais adequado, pois a palavra mistério é a que melhor se enquadra, visto nunca lá ter visto uma Galinhola, e este dia não seria excepção.
Vou então e para não sermos muitos e não termos de caçar como nãos gostamos, em linha, para uma zona diferente, mas que tanto gozo me dá, os pinheirinhos. Sozinho naquela zona com Faruck se é dia, vou-me divertir, mas apenas uma lá estava, como que a ultima guardiã de tão magnifico castelo. Vejo então o cão fazer um rasto que desta vez sinceramente julguei ser de coelho, vejo-o por entre os pinheiros e ligeiramente afastado ficar parado, levantou-se então uma Galinhola rapidamente sem sequer deixar o beeper tocar, arisca sem vontade de tombar. Chamei o Jorge para trazer o Sr. Vassenet e a esposa, para que juntos a procurasse-mos e quem sabe eles a matassem, mas nada, mais uma daquelas que na Apostiça não dão segundo levante. Acabou por ser abatida outro dia pelo Jorge e parada pelo uster no mesmo local do primeiro levante do Faruck.
Era hora de almoço, entre historias onde apenas haviam dois protagonistas, Cães e Galinholas, lá ia-mos devorando uma grelhada.
Era hora do segundo tempo, a tal, esquiva, blindada que vive na maracha. De botas e sem arma lá fui eu com o Faruck, pois esta requeria algum jogo de bastidores, pois era demasiado esquiva, tinha de ser trabalhada por um bom cão, que soubesse e gostasse de nadar em águas frias de pleno Inverno para passar a ribeira a nado e entrar nos seus domínios, uma pequena ilhota, muito fechada com salgueiros e silvas onde ela fez sua guarida, cá fora da maracha ficavam o Michel e a esposa, à espera do ouvirem o beeper. E assim foi, Faruck entra a nado qual fuzileiro bem treinado, a abordagem foi cautelosa, como que sabendo da mestria da opositora, eu entro atrás do cão, galgando a água por cima de um tronco de um velho salgueiro caído que ali estava quase perfeito fazendo de passadiço entre a realidade e o imaginário.
O cão deixa-se de ouvir, o beeper rompe o silêncio, todos em redor ficam de olhos postos naquela pequena ilha, ela estava ali, mas no meio daquele terreno sujo, como que por magia ela consegue iludir-nos e desaparecer por entre a vegetação cerrada. Foi mais forte!
Refeitos da emoção lá vamos nós para outra zona, de tojo, fechado e duro, procurar outra dissidente, que estava onde menos se esperava, trabalhada pela Zaza, e abatida num tiro simultâneo luso-português, um cobro complicado mas com manha lá se conseguiu. Depois era hora de ver como andava de pássaros noutras paragens, menos batidas, mais sujas e complicadas, 2 erradas pelo Sr. Vassenet foi o de mais relevante.

20-01-2008

Uma manhã de Domingo.

Uma manhã fria de um domingo de Janeiro na Apostiça foi palco de mais uma jornada calma sem muitos apertos no coração.
Escolhida a Shepa para companheira de jornada, para dar descanso ao Faruck após uma semana de caça intensiva, proveitosa em lances protagonizados por ele, mas que sem duvidas lhe deixaram marcas, o cansaço era evidente portanto decidi deixa-lo uns dias em casa a recuperar para outros embates em que ele é mais necessário.
A zona escolhida era a mesma onde o Michel tinha errado 2 pássaros dias antes, pinhal novo com muita silva e tojo cerradíssimo ladeado de eucaliptal tornavam a coisa dura e difícil.
A primeira saiu ao Jorge levantada pelo Talof, um Braco Francês de competição que nunca tinha caçado ás Galinholas mas as suas aptidões para esta caça eram latentes.
Palmeando terreno, gemendo e cerrando os olhos aqui e ali a cada arranhão ou picadela de silvas ou tojo, lá fui andando, confesso que a motivação era pouca, não acreditava no terreno, achava mesmo para uma Galinhola demasiado impenetrável, mas ser caçador de Galinholas é isto mesmo, espírito de sacrifício. Talvez eu tivesse uma pouquinho de razão, pois apenas vi um pássaro numa zona mais limpa e com melhores características, curiosamente já ao cair do pano e com o carro à vista. A Shepa lá desencanta num rebuscado arbusto uma bela ave de bico, que num tiro rápido cai pouco à frente, pronta a ser cobrada alegremente pela cadela. Fui tudo e talvez mais do que esperava naqueles terrenos tão inóspitos.

22-01-2008

Complicado é pouco.


9 da manhã e a adrenalina de sempre acerca-se de mim, pergunto-me até quando esta pequena ave de Bico me fará sentir tamanhas emoções?
As zonas e os companheiros de caça, os mesmos de sempre, velhos hábitos que não mudam, eu e o Carlos Lopes, o Jorge e o Mário faziam os dois grupos que distantemente próximos caçávamos.
Um cabeço conhecido, uma zona que para mim era novidade, saio com o Faruck, que pouco depois me pára uma Galinhola, percebo pela expressão do cão que se estava a furtar a pés, o beeper toca, o Carlos acerca-se assim como o Mário, digo ao Carlos que, ela está a furtar-se ao cão, leio isso na sua cauda pestanejante, mudo e volto a mudar de posição à espera do melhor ângulo de saída da ave, mas esta tarefa torna-se complicada, pois o cão parado mudava constantemente de posição, o que nos leva à velha questão, será o cão a parar a caça, ou a caça a parar o cão!? Ela sai então, completamente tapada por um velho pinheiro, a minha reacção foi de perplexidade, o cão olha para mim e eu por trás dele vejo sair uma outra Galinhola, não sei porquê, que admiração há numa galinhola sair furtada e completamente tapada? Nenhuma! Cada lance tem uma reacção característica, este foi o espanto e ter dito ao Mário “Calma, calma” ele não entendeu o porquê das minhas palavras, talvez eu inconscientemente já visse aquela Galinhola num outro lance mais à frente, talvez e estupidamente a acha-se minha propriedade, mas tal não sucedeu, não demos com nenhuma das duas.
Pouco mais à frente, presencio o bailado mais fantástico alguma vez presenciado por mim. Um pequeno aglomerado de árvores, pinhos e chaparros, poucos, com algum sargaço pelo meio, numa ponta encurralada entre uma vedação e um caminho, o Faruck começa a pistear notoriamente um pássaro, que pelo meio do sargaço lhe trocava as voltas, eu agarrado ao ferro sentia que ela ia sair a qualquer momento, não tenho muitas palavras para descrever a beleza da cena. Pouco mais de 10 metros quadrados de sargaço, numa clareira entre as árvores, uma esteva maiorzinha embelezava a coisa, o cão louco a sentir a ave, deslizava e parava, desfazia a paragem e voltava a parar no outro lado, e a cena repetia-se, quando, subitamente, pára de frente para mim, aqueles olhos vidrados, em transe, faróis num corpo imóvel indicavam que ela estava ali entre os dois. De repente a cauda do cão move-se tão lentamente que apenas eu a sabia entender, o pássaro estava novamente a furtar-se! Nem queria acreditar, senti-a então a sair nas minhas costas, a menos de 1 metro dos meus pés, virei-me rápido mas já só consegui um pequeno vislumbre ténue entre ramos dum velho chaparro, que quase dava a ideia que se moveu para proteger a Dama e lhe assegurar a fuga. Que lance fantástico, que trabalho do cão, que Galinhola esperta, tinha-se furtado entre mim e o cão, no meio do sargaço tinha-se metido nas minhas costas e de uma forma limpa foi mais forte que eu e o cão! Ela esteve melhor, de uma forma merecida ficou para viver!
Sem que tivesse sorte nos abates, tinha comigo a sorte de desfrutar dos mais belos lances, eles, os companheiros, faziam um abate aqui e ali, com lances à medida de cada um.
Mudamos então de zona, para uma ladeira alta perto de uma ribeira, o chão mostrava que por ali tinham de andar pássaros, era impressionante o numero de buracos e raspados por toda a zona, parecia que um batalhão de pássaros ali tinham vasculhado toda a zona até chegarem ao ultimo verme, nunca tinha visto nada assim na minha vida, já tive a oportunidade de em certas zonas verificar ao vivo a indicação de pássaro pela zona toda esburacada, mas assim não, era demais.
Mas apenas uma nos saiu, estranho, tanto buraco não era certamente de uma só ave, mas infelizmente uma era a conta, ainda por cima dividida por dois, ela sai ao Carlos é chumbada por ele, e também por mim quando me passa perto, vimos que cai lá em baixo da ladeira, chumbada pelos dois de quem seria esta ave, não que isso constitui-se algum problema, mas só poderia ser de um, resultado seria daquele que o cão cobrasse, após alguma dificuldade da zara e da Shepa, duas Setters más cobradoras, calhou-me a mim em sorte, era a Shepa que vinha com ela na boca, estava então resolvido o enigma.
Não foi um dia de grandes abates para as Galinholas paradas, mas lances bonitos, esses tive os melhores sem dúvida.

27-01-2008

Com os mais novos também se aprende.


Uma Zona de caça municipal conhecida era mais uma vez o local escolhido. Feita a inscrição pedem-me se me importava se comigo fosse um senhor que conhecia mal a zona. Simpático o senhor, com 3 Bracos iniciava-se esta época nas Galinholas, com um abate apenas contra os meus 19, estranhamente olhava para mim com um ar de intrigado com um pouco de interesse à mistura, ansioso por saber o meu segredo para o sucesso. Directamente surgiu a pergunta, “como tem tantas Galinholas, onde as mata?” a minha reposta foi como sempre evasiva, educadamente lá respondi sem entrar em detalhes que tinha algumas boas zonas onde caçar, que perdia muito tempo nesta caça e que tinha bons cães, sintetizei a verdade.
Com o passar do tempo, conversa aqui conversa ali, lá me fui abrindo mais, libertando um pouco a minha carapaça rígida que me caracteriza quando conheço pessoas novas. O Sr. sempre simpático com um ar de ternura e saudade, diz-me o seguinte: “sabe você é jovem e faz-me lembrar o meu filho que tinha a sua idade neste momento se fosse vivo”. Eu devo ter feito uma cara estranha, não esperava, mas o Sr. Andava ás Galinholas por motivações distintas das minhas. Era para ele um escape, uma forma de se libertar da prisão de memórias de um filho falecido que perdera uma batalha contra o cancro. Eu por sua vez tinha-o feito relembrar o seu filho, numa altura que não era suposto, mas, não sei se quem perde um filho consegue sequer passar um minuto abstraído de pensamentos marcantes.
Levei-o à minha zona mais quente, não sei se por solidariedade ou uma espécie de ternura, ou pela ainda maior vontade minha de lá ir ao “meu” cantinho mágico, talvez um pouco das duas.
O Sr. Sempre muito presente tentava saber e colher o máximo de informação possível, pois tinha gosto por esta caça, mas notoriamente pouco conhecimento, eu dentro do possível tentava ajudar, até lhe dei com gosto um dos meus cartuxos especial Galinhola, para ele experimentar, o qual vim a saber depois que esse mesmo cartuxo tinha abatido uma Galinhola.
Apesar da minha boa vontade, não estava nenhum pássaro no meu cantinho. Decidimos então ir para uma zona nova que desconhecia e que nem sabia que fazia parte da ZCM.
Pinhal novo, com alguns poucos Eucaliptos, uns matos de bom aspecto e mimosas baixas e muito juntas formavam uma zona espectacular para Galinholas. Infelizmente nada, só no final da mancha o Faruck pega num rasto, mas que pouco depois desliga, eu fiquei com a sensação que estava ali um pássaro, e como tal vou para trás para a zona que achava possível caso o meu pressentimento fosse verdadeiro, estaria a ave.
Estranhamente foi numa baixa com algum pasto rasteiro sem matos crentes e muito despida que o cão me faz uma guia frenética e fica parado de frente para mim num matinho pequeno com não mais de 10 cm de altura, sai a galinhola já tapada pelo único arbusto capaz de a esconder, mas sem hipótese rapidamente atiro e abato a ave.
O Sr. Sempre atento fica extasiado com o trabalho do cão e seguidamente dá-me os parabéns com o tradicional aperto de mão becadero.
Depois de caminho até ao carro, foi altura de um jovem ensinar um pouco do que sabe a alguém mais velho e com muitos mais anos de caça. Espero que tenha dado alegrias e que tenha feito relembrar coisas boas a tão gentil senhor.

03-02-2008

O bailinho da Madame.


Uma manhã fria de Fevereiro trazia-me à memória lembranças intemporais de lances vividos pouco tempo antes, naquela mesma zona, não sei porquê mas as expectativas não eram muitas, a zona sempre foi fraca em pássaros, apenas tinha algo de bom, as características e a beleza do terreno proporcionavam sempre lances de rara beleza.
A mancha era a mesma onde tinha vivido o lance mais belo da época, onde com um Bom amigo o Frederico tínhamos presenciado um lance fantástico do cão, numa Galinhola errada a meias, e onde com o Jorge tinha morto a minha primeira da época passada, parada pelo Faruck, que aguentou todas as entradas forçadas de 2 cães novos.
Pensando bem até tenho tido alguns lances naquela mancha, agora que faço contas não são assim tão poucos.
Faruck foi mais uma vez o escolhido, não vá ter entrado pássaro com o tempo que fez nessa semana, e já começa a ser hora de aos poucos elas começarem a regressar a casa e fazerem umas paragens por estas bandas, a zona é boa para galinholas de passagem, pois alberga todas as características que uma Galinhola necessita, é um plano alto, bastante húmido, terreno irregular repleto de vegetação típica. “Talvez tenhas sorte, este tempo faz mexer muito os pássaros” foram as palavras matinais do Jorge quando nos despedimos, pois ia de viagem para mais um ano de provas na semana de Andaluzia.
O ritual é o mesmo de sempre, o carro parado no local do costume, o cão sai do carro com a mesma alegria de sempre (ainda há quem pense que um cão de caça não se diverte, é porque nunca viram de perto!) meto-lhe o beeper, visto o colete, pego na justaposta e lá vou eu, com a convicção e paixão habituais. A mancha já não tem segredos, é feita sempre da mesma maneira, minuciosamente bato eu e cão todos os cantinhos conhecidos, até que pouco depois num local “quente” o cão pára a primeira, esta levanta direita à copa de um eucalipto mas depressa tomba perto do cão que prontamente a cobra, era uma das clarinhas, linda, tão linda! Saco do telemóvel e ligo de imediato para o Jorge que ia em viagem, muito antes de sair de Portugal, já eu tinha uma Galinhola aconchegadinha no saco de veludo. “Jorge a Primeira já caiu!” ouve-se do outro lado um suspiro, indicativo de uma consciente nostalgia e saudade de quem está longe e não pode acompanhar, a resposta não podia ser outra “então como foi?” por telefone tive de contar o lance na integra, faz parte, quando não caçamos juntos temos por habito ligar um ao outro e contar o lance, tipo relato telefónico, por vezes ao vivo e em directo, pois por uma ou outra vez por telefone ouvimos de repente o beeper do cão tocar, e a celebre frase, “Espera aí que vou atirar” e com o telefone no bolso ou como uma vez no meu caso agarrado com os dentes, completamos o lance, o outro longe acompanha o lance por telefone. O Jorge refeito da notícia lá segue caminho, convicto e consciente que para ele a época tinha findado.
É tempo de continuar, se ali estava uma Galinhola naquele local, é provável que estivesse outra na melhor zona, o cão entra então na zona melhor, sinto o cão fixado num rasto de pássaro, rápido faz a zona de tojo e por trás de mim levanta-se uma galinhola esquiva. Conhecedor do terreno imaginava onde poderia estar, vou lá com o cão, pouco depois estava parada, sai rápida mas estranhamente erro um tiro fácil, cerro os dentes, chamo-lhe um nome feio, engulo em seco e lá vou eu mais o cão, tentar de novo. Mais uma vez tinha uma noção de onde ela poderia estar, estava mesmo, o cão pára-a a uns escassos 30 ou 40 metros de mim, ela não se deixa chegar, levanta novamente. Pouco depois dei novamente com ela, ouço o beeper tocar, mais uma vez ela não me deixa chegar perto e levanta mesmo à frente do cão. A história repete-se por 9 vezes, o cão a para-la ela a não me deixar chegar e a levantar sem me deixar acercar do cão. Mudei de estratégia, deixei o cão a parar e ir pela frente, mas nem assim, ela foi sempre melhor que nós. Nem mesmo numa zona que bem conheço e bastante afastada da zona que inicialmente estava consegui atirar, foi sempre mais forte, mais esperta, certamente já trazia de outras bandas muita experiência com cães e caçadores, ensinamentos valiosos para ter saído vitoriosa, espero que nada lhe aconteça até à sua zona de nidificação e que nos encontremos aqui na próxima época.

07-02-2008

Com muita fé!


A época já vai larga, as expectativas eram altas, Fevereiro era já altura dos regressos, era hora do regresso a casa para muitos migradores, o tempo tinha mudado durante a semana o que faria certamente mexer os pássaros, na Herdade as inúmeras marrequinhas tinham-se já feito ao caminho, como emigrantes que são tinham já muitas delas iniciado o regresso, havia por lá uma mínima parte do que lá andava na semana anterior, era um sinal indicativo que os ventos favoráveis levavam já de boleia muitas aves migratórias. As Galinholas com sorte teriam entrado na Herdade, pois as que estavam mais a sul do país teriam de fazer uma paragem e nada melhor que esta Herdade para um curto descanso, entre as várias etapas.
Rapidamente verificamos que as nossas expectativas não estavam goradas, lance atrás de lance, Galinhola atrás de Galinhola, elas iam tombando.
As zonas as de sempre, principalmente aquela que já lhe chamávamos “o cantinho do Faruck” as suas marcantes prestações aos olhos de todos naquele local fizeram com que aquela zona fica-se assim apelidada.
Mais uma vez o Faruck esteve muito bem no “seu” cantinho, eu junto com o Carlos fazíamos um grupo, o Manel e o Mário outro e assim iniciamos a jornada. Aqueles terrenos amplos, bem arejados e de sargaço novo são bem ao jeito do nariz de um cão britânico, os nossos cães meus e do Carlos (Setter e Pointer) fazem ali a diferença, os galopes, os narizes no ar são bastante úteis. O Faruck após uma época de treinos de competição, sempre bem centrado no terreno, fazia a diferença. Ouve-se um beeper, era a primeira do dia todos ficam com os sentidos alerta, para lá da dobra de um cabeço estava o meu cão, corro para tentar abrir as hostes, mas ela sai antes de me acercar do cão, uma lebre sai-me também debaixo dos pés incrédula afasta-se pensando para ela o que leva esta gente a não lhe atirar, malucos, não, Becaderos. A Galinhola essa tinha passado a vedação para o outro lado, chamo o Carlos e decidimos lá ir ver dela, a passagem era diferente, pelo chão, debaixo da rede, pelos buracos abertos pelos javardos e que lhes servem de passagem, valia tudo desde que lá fossemos parar. Já no outro terreno do lado, de iguais características apenas separado por um caminho começamos a rebusca, Zara e Faruck passavam alternados por mim, indiferentes um ao outro, sabiam o que lhes era devido. De repente Faruck faz uma derrapagem a escassos metros de mim, em ponto pensei eu, lindo, que graciosidade, Zara faz um típico e curto deslize e fica num largo patron, espectáculo, que quadro, um espaço despido e uns escassos 5 m2 de sargaço pregados em terra nua indicavam a localização exacta da ave, “só podia estar ali, pensei” e estava! O Faruck faz um pequeno deslize enquanto o som do beeper me aquecia a alma naquela manhã fria de Inverno. O Carlos observava de não muito longe tamanho espectáculo. Ela levanta completamente à mercê da minha justaposta, bem cobrada tinha-nos proporcionado momentos únicos de rara beleza.
Ouvia-se um tiro não muito longe, o Manel tinha também ele abatido a primeira.
O Mário vai então mais acima numa zoa já seca e desprovida de sentimento pelo pássaro, abate a sua primeira na crista dum cabeço, enquanto isso o Carlos perto de mim, tem um enorme navalheiro parado pela cadela, recomposto lá seguimos.
Separamo-nos então um pouco, eu e o Carlos decidimos de comum acordo revasculhar o sargaço já feito. Os dois temos algumas coisas em comum, somos pessoas simples que vimos a caça de maneiras semelhantes, caçamos bem juntos, temos o gosto talvez raro nos tempos que correm de viver o lance do companheiro com alegria e intensidade como nosso se trata-se, não nutrimos qualquer sentimento de inveja pelos lances vividos pelo companheiro, a beleza de um lance está sempre lá independentemente do cão que o protagoniza e da arma que o finaliza, quer ele ou eu tivemos pássaros abatidos que nos saíram a tiro mas trabalhados pelo cão do outro, não nos sentimos ofendidos por isso, sinto por ele uma grande Amizade apesar de nos conhecermos à pouco tempo, não é normal em mim, pois sou reservado nestas coisas e demoro muito a abrir-me mas, senti nele muita sinceridade nos seus actos e nas suas palavras, o seu bom senso é latente, não há muita gente assim nos dias de hoje!
Regressando à caça. Eu e o Carlos paramos para ponderar a volta, e decidimos que deveríamos fazer a volta que o Mário tinha feito, não sei se por não confiarmos nas cadelas dele, se um feeling, se apenas uma vontade de fazer aquele terreno novamente. O que é certo é que pouco depois o Faruck pára mais um pássaro, que me saiu larga mas é abatida pela Silver Hawk do Carlos, como bom atirador (chamado ao campeonato da Europa) poucos tiros o vi falhar!
Mais a cima a cena repete-se e mais um pássaro trabalhado pelo Faruck que facilmente abato.
Um aqui outro ali todos ia-mos tendo bons lances sempre carregados de emoção, acabei o dia com 3 abates, no total conseguimos 9 Galinholas em 12 levantes, era certamente a ultima boa jornada da época.
Devaneios finais.

Sem Internet nem televisão devido a este mau tempo, um temporal à antiga, sozinho em casa numa noite fria e chuvosa, lembrei-me de escrever o ultimo capitulo deste meu diário de galinholas desta época que ontem findou.
Esta foi uma época proveitosa onde tudo excedeu as minhas próprias expectativas, tinha como objectivo pessoal e já arrojado fazer 12 abates para fazer a “alternativa” de “Becassier” mas depressa percebi que poderia conseguir algo mais ambicioso, pensava dada altura para mim que talvez fosse possível ultrapassar os 12 pássaros, claro que tudo isto foi procedido de um inicio de época bastante assustador, pois apostei tudo na Bela Dama e ela teimava em faltar ao nosso encontro, mas por fim lá se mostrou e a partir dessa data uma atrás de outra mais ou menos difíceis, com mais ou menos historia lá ia compondo as coisas.
Recordo agora alguns bons lances que jamais esquecerei, lances onde eu fui apenas um singelo e dedicado companheiro dos cães, esses sim foram os grandes protagonistas, corajosos e dedicados companheiros de caça, incansáveis trabalhadores que me encheram de alegria este coração Becadero, que a cada lance do cão batia mais forte.
Do Frick não tenho muito a dizer, apenas que sei ser capaz de me surpreender, tenho fé nele e o que vi deu para sentir a paixão que tem acorrentada dentro dele, um par de pássaros vistos entre deles um parado não foram suficientes para lhe dar a experiência necessária, mas mais anos virão.
A Shepa apesar dos problemas de saúde deu-me 5 pássaros onde um deles vou recordar por muitos anos, um belo trabalho e uma paragem deitada que me elevou para outra dimensão, simplesmente belo, tem tudo para ser uma boa cadela de Galinholas.
O Faruck, bem este só de pensar nele as minhas entranhas remexem de emoção, a minha barriga dá um nó, a garganta seca e o coração bate mais forte, penso por vezes que este cão me estava destinado, que veio à terra para preencher alguns vazios na minha vida, talvez alguém que lá em cima que se ocupa a olhar por mim mo destinou.
Em nada me espantou nesta época, foi ele e apenas ele. Dele não posso dizer que recordo um ou outro lance, recordo sim toda uma época quer desportiva (melhor Pointer caça prática do CPP) quer na caça, mas o dia nos pinheirinhos da Apostiça ficou perpétuado, o lance da primeira Galinhola de 2008 esse não me sai da cabeça, como um pássaro, um cão e uma arma podem mexer tanto com as emoções de um Homem, grandes dias no Alentejo, aqui perto de casa e em todos os sítios onde caçamos o Faruck mostrou a sua mestria a encontrar, trabalhar e parar Galinholas, carácter, força, entrega e dedicação fazem a diferença e dão-nos pássaros que aos olhos dos outros caçadores e narizes de outros cães parecem impossíveis. Sinto-me completo e preenchido com ele, a minha Paixão por ele é estranha, como pode um ser humano gostar tanto de um animal, e o contrário também é verdadeiro!? sinto que ele é parte de mim, se ele soubesse quão importante é na minha vida, para repor algum do meu equilíbrio emocional que em mim se esvai rapidamente… talvez saiba.
Comecei este diário dizendo que tinha apostado tudo nas Galinholas, pois bem se mais tivesse mais apostaria, dei-me realmente bem, mas fruto de muita entrega e dedicação, de muito esforço no campo, muitos arranhões de silvas e tojos, muito empenho mesmo nas horas mais complicadas e da qualidade dos cães, nunca esquecendo dos companheiros de jornadas principalmente do Jorge que me ajudou e ensinou muita coisa que me permitiu alcançar este número feliz de 24 Galinholas.
Por ultimo, porque os últimos são sempre os primeiros, a Nessa, pois sem ela nada disto era possível, ela à semelhança do Faruck tem a outra metade do meu coração, paciência para me aturar e para ficar sozinha fins-de-semana a fio, dedicação em tudo o que faz por mim não são ignoradas nem esquecidas, o apoio o carinho e a entrega demonstrados foram para mim tão importantes para fazer os 24 abates como a ajuda do Faruck, pois não há nada que chegue ao prazer de se caçar de mente livre sem carregarmos connosco o peso de deixar-mos em casa alguém contrariado, triste e só. Isto jamais esquecerei, é sinónimo de grande inteligência e de um inegável Amor.
A nostalgia já se apoderou de mim, o som do chocalho e o chamar do beeper estão gravados bem fundo na minha alma. Já sinto a falta das manhãs de Inverno e de sentir os dedos enregelados mesmo dentro dos bolsos, da expressão dos cães, da sensação inexplicável do primeiro pássaro do dia que nos dá alento, da beleza de um levante, da incerteza de um disparo e da perplexidade de um tiro errado, da admiração de um pássaro que se consegue furtar e da inigualável beleza de ver o cão a cobrar uma peça e retornar com ela na boca, do comentar do lance com os companheiros, todos estes e muitos outros pormenores é que me fazem ser um feliz apaixonado pela Bela Dama, Senhora dos Bosques, agora só desejo um bom ano de criação e que a próxima época me traga tantas emoções como esta, sempre na companhia dos meu cães e na da minha maior e mais bela Dama, a Nessa.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Scolopax rusticola

 
Nome Comum: Galinhola
Nome Cientifico: Scolopax rusticola Linnaeus, 1758

Taxonomia:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Charadriiformes
Família: Scolopacidae
Género: Scolopax
Continente: Invernante.
Açores: Residente.
Madeira: Residente.
Distribuição: Distribui-se pelos Açores, Madeira, ilhas Canárias e Britânicas, Europa Ocidental, Cáucaso, China, Norte da Índia até ao Japão. Inverna no Oeste e Sul da Europa, Norte de África, Índia e Indochina.
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
habita e/ou nidifica rara/ocasional

A Galinhola é uma Ave limícola da mesma família das Narcejas, ave com a qual apresenta, muitas semelhanças morfológicas. Todavia tem uma envergadura que a distingue facilmente da Narceja. A sua plumagem é em tons de castanhos e ruivos bastante elaborada, que lhe permite obter uma perfeita camuflagem. Possui um bico forte e comprido, com cerca de 7cm, .indicado para furar o solo o procurar o seu alimento favorito, minhocas e vermes, tem uma cauda curta com uma típica pintura branca no final da
mesma e na zona inferior, as asas são compridas e arredondadas.A diferenciação sexual só é visível depois de morta e aberta, de outra forma não há uma diferenciação visível entre sexos. Muitos caçadores acham que o tamanho diferente do bico é indicador do sexo, mas cientificamente não está provado, inclusive muitos caçadores e entusiastas supõem que o tamanho do bico está relacionado com as diferentes zonas de alimentação e crescimento.A ave tem olhos proeminentes, posicionados muito atrás na cabeça, esta posição dos olhos permite à galinhola ter um ângulo de visão de quase, 360 graus

Habitat.
É uma ave típica dos bosques húmidos onde se encontra uma vasta manta morta fértil em vermes, embora variando bastante os seus habitats, escolhendo em qualquer dos habitats que a possamos encontrar zonas mais abrigadas para demarcar o seu território, pois é uma ave que escolhe o seu território e nele passa bastante tempo, podendo ser encontrada várias vezes numa mesma zona.Em Portugal é comum ser vista em Pinhais, Eucaliptais, Montados, Estevas, zonas de sargaço, tojo, e em marachas junto de ribeiras nos anos mais secos.Zona de procriação.A Galinhola procria nas zonas frias da Rússia e países vizinhos, e viaja para a restante Europa durante o Inverno procurando temperaturas mais amenas fugindo assim aos rigorosos Invernos Russos, nas alturas das migrações anuais, dependendo dos ventos a quando da migração as densidades de aves são maiores ou menores, sendo que ocupam praticamente toda a Europa e vão até Marrocos.Chegando ao nosso país é normal verem-se em dias de entrada zonas com uma abundância extrema, mas depois internamente dá-se uma migração interna onde as aves se distribuem, em Portugal estão distribuídas por todo o país, embora as zonas de terras do Sado e do Tejo a sua quantidade seja elevada, mas em maior ou menor quantidade estão distribuídas por todo o país. Nos Açores e na Madeira, são populações residentes que recebem também um circuito migratório. As migrações iniciam-se em Outubro, mas a vaga maior de migração é por volta de meio de Novembro, chegando a Portugal em quantidades consideráveis por volta de 18/20 de Novembro e ficando até final de Março.Durante a migração os machos são os primeiros a partir solitariamente, as fêmeas partem com crias em pequenos bandos, fazendo até 400km por noite numa velocidade de cruzeiro de 65KM/h, visto as deslocações serem normalmente á noite.

Diário de um Becadero. 2007

28 Nov 2007

Desabafos…


Neste momento não são relatos de belos lances envoltos em magníficos detalhes que me fazem sonhar ao relê-los, nem muito menos discrições de fartos abates que tenho para contar. São sim desabafos pessoais, fruto de uma época já precocemente iniciada, talvez devido à desmesurada paixão pela Dama e pelos momentos magníficos que me proporciona. Tínhamos começado demasiado cedo, e por questões climatéricas só irá certamente ter frutos tardiamente.
Este diário serve para um dia mais tarde relembrar determinados lances e em especial os momentos onde a Dama foi mais forte, onde saiu dignamente vitoriosa, qual gladiador deitado aos Leões, com a diferença que aqui a arena é-lhe familiar, onde domina na perfeição todos os seus segredos e recantos. Estes lances são muitas vezes os mais marcantes e aqueles que nos tiram horas de sono como se de espíritos ainda meio terrenos se tratassem. Lances que nos fazem reviver em pensamento, na infindável busca pela explicação mais lógica dão nosso fracasso.
Nestas primeiras linhas quero falar no que está na base de tudo, o porquê de ser caçador de Galinholas, um “Bécassier”, um “Becadero” como lhe queiram chamar. Tudo começa como um qualquer encantamento, numa feliz jornada pródiga em lances e fraca em abates, mas plena de fortes emoções e totalmente dentro do espírito do verdadeiro Bécassier, “caçar o mais possível matando o menos possível” francamente não sei dizer se é mesmo essa a minha forma de pensar, se é este o verdadeiro espírito que nutro por esta caça. Sou demasiado impetuoso e egoísta para pensar assim, embora nesta caça este lema seja quase como uma obrigação dadas as dificuldades de muitas vezes se completarem os lances, esta frase está muitas vezes vinculada à realidade e não há como fugir dela, como que requisito obrigatório a que a Dama obriga. Nesta caça a qualidade dos lances para mim tem muito mais importância que a quantidade de abates, 1 ou 2 peças cobradas de uma forma digna da Dama e sempre com um trabalho deslumbrante do cão, são o suficiente para me darem anos de vida.
Não sei se a beleza dos terrenos, a paixão demonstrada pelos cães ou a emoção do acto em si pleno de formalidades, etiqueta e sabedoria que me cativam a cada levante sombrio, esse momento único mas tão breve. Como se diz, tudo o que é bom dura pouco, nada mais adequado encontrei para descrever um levante de uma Galinhola.
Não me sinto especial por ser um caçador de Galinholas, sinto apenas que pratico algo especial, onde obtenho o máximo partido dos cães, que, conjuntamente desfrutamos de momentos únicos e especiais, sei que os cães compartilham da mesma paixão pela Dama, sei pelo seu olhar meigo de agradecimento a cada jornada. Sinto-me apenas especial pela mulher que tenho que me apoia e me dá força para viver esta minha paixão mesmo nos momentos mais duros, todos estes factores são aqueles que me fazem ser um viciado pela Bela Dama, havendo mais um factor bastante forte, a minha intrínseca necessidade de me superar de querer concretizar os sonhos e de os conseguir, pois acima de tudo sou um caçador de emoções, é isso que essencialmente procuro, a emoção a cada lance, a alegria de cada cobro seguida de uma estranha sensação de nostalgia e perda pela morte de tão belo ser que me proporciona tão belos momentos em vida, vá-se lá explicar o que passa na cabeça de um Homem.
Esta época 2007/2008 apostei tudo na Dama, tendo apenas marcado caçadas ás Galinholas, não me costumo dar mal com estas apostas, embora ainda um pouco cedo, neste momento algumas dúvidas legítimas pairam na minha cabeça.
Apostei tudo como se de um casamento se trata-se, preparando a época como se a boda fosse, com carinho e a antecedência devida, esperando da minha Dama uma paixão recíproca e que pelo menos se apresenta-se na altura devida. Mas esta qual noiva há-de comparecer, mas como manda a regra com o devido atraso. Um ano dramaticamente seco pode deitar esta união por terra, esta paixão fez-me começar a época demasiado cedo, mas o vicio falou mais alto, passados agora pouco mais de 20 dias e umas tantas jornadas ainda não vi nenhuma Galinhola, uma sequer que me brinda-se com a sua presença, um desespero saudável e uma inquietante impaciência começa agora a acercar-se de mim como que se de um amor proibido se trata-se, eu e os cães temos felizmente a força necessária para não desistirmos ou sequer nos deixar-mos levar por este sentimento derrotista, mas como qualquer paixão também esta tem de ser devidamente alimentada e nada melhor para isso que ver o cão parado naquela inexplicável expressão de firmeza e concentração absoluta, como que enfeitiçado por uma fada boa.
Hoje dia 28 de Novembro após uma tantas curtas jornadas ainda não vi nenhuma, por razões climatéricas elas encontram-se fora das habituais zonas de crença, a falta de chuva, os fogos, o calor anormal para a época e a desmesurada desflorestação nas zonas principais de nidificação na Rússia, aliado a novas rotas de migração estão a alterar tudo de ano para ano.
Ainda espero com a mesma convicção de sempre uma boa época e a tal emoção indescritível de ver o Faruck parado, de olhos vidrados no infinito onde presume que se aconchega a nossa Dama.

01-12-2007

A beleza do primeiro encontro.


Finalmente a Dama brindou-me com a sua presença, talvez tenha esperado para se mostrar no mais belo palco que alguma vez tive a oportunidade de caçar, uma zona de maracha que ladeia um ribeira de águas cristalinas e de aspecto gélido, zona é estreita, acompanha uma ribeira que segue para lá dos limites do couto, muitas silvas e salgueiros e muitos pinheiros não muito longe adornam a paisagem. Entrei para a mancha debaixo de uma ponte que une dois montes irmãos, divididos um dia longínquo por um braço do Sado. Mal me aproximei deu para sentir a presença da Dama, os meus olhos devem ter assumido aquele olhar típico da ocasião, indescritível, apenas quem me conhece entende estas palavras, a minha pele arrepia-se só por sentir o que estava para vir. Não sei se seria o forte aspecto da zona, se a minha própria vontade de ver a ave que me fazia agarrar ao ferro com a alma cheia de esperança e a cabeça invadida por inúmeros pensamentos e devaneios. O chão típico com alguma lama coberta de folhas que fazem um soalho tão do agrado da ave, eram tantos os indícios que a Dama não poderia estar hoje. Não demorou muito até o cão também ele entrar no espírito e com muita vontade e muito sofrimento à mistura pois os terrenos eram duros, começar a procurar a Dama com vigor e empenho típicos dele. Rapidamente a sensação esperada apodera-se de nós, primeiro o vislumbre depois o deslumbre especial da primeira Galinhola da época, graciosa levantou direita a uma aberta no topo do coberto, ali via a saída mais lógica pois o cão tapava um dos lados, o silvado tapava os outros 2 e eu por fim fechava uma espécie de quadrado. Um tiro e estava iniciada a época, finalmente os meus olhos encheram-se de alegria ao ver o cão com ela na boca, uma festas ao cão e a contemplação da ave, numa mescla de alegria e confirmação da minha escolha. Uma Galinhola nova linda que iria agora para uma bolsa própria oferecida pela namorada e que era agora a ocasião da estreia. A altura era de continuar, com mais vontade e o coração mais aberto e alegre. Pouco mais à frente na extrema da mancha o cão pega num rasto mas a ave não lhe permite a paragem levantando para fora da mancha e rodando para trás, não me deu oportunidade de tiro, mas sabia que a poderia levantar de novo, decidi seguir em frente e deixar a Dama acalmar, lutando contra ramos de salgueiros e elaboradas tapeçarias de silvas lá fui andando, até que decidi voltar à zona onde achava que ela poderia estar. E estava mesmo, mas esta não estava disposta a entregar-se sem dar luta, levantou-se de uma forma decidida e rápida do lado contrário do silvado onde estava o cão, errei-a com 2 tiros, faz parte! Não mais a vi, apesar de a ter procurado a ela e a qualquer outra descobrindo sempre locais lindíssimos que me alumiavam a alma a cada passo que dava, apesar de não mais ter visto algum pássaro naquele dia, tive o prazer de desfrutar de paisagens que julgava só ao alcance dos pincéis de ancestrais artistas plásticos. São momentos que ficam gravados e que me fazem dia após dia perceber que a Dama é especial, e torna especial e mágico, tudo o que a rodeia.

02-12-2007

Nem em sonhos.


Após uma viagem de mais de 3 horas e de poucas horas de sono chegamos ao Algarve, levava comigo na bagagem a esperança de uma jornada de sonho, pois por vários dias que me enchiam a cabeça com histórias de vários levantes, fartos abates e lances de sonho naquela mancha. Confesso ser um sonhador e estava disposto a também eu retornar daquele palco com belas histórias para contar.
Pouco passava das 8h quando começamos a caçar, eu, o Jorge e o Paulinho. A volta estava definida, mas depressa tudo se alterou, mal meto o pé na mancha, levanta-se uma Galinhola que ninguém contava tão cedo, ao Paulinho quase em simultâneo outra, o meu coração disparava, os meus olhos brilhavam, as minhas mãos cravavam-se na arma quase como que soldadas ás suas belas platinas. Senti algo que há muito não sentia, emoções à flor da pele, todos tivemos de nos acalmar, até mesmo caçadores experientes como eles dois sentiam a adrenalina na pele. Era tempo de recalcular a volta, o terreno era duríssimo apenas ao alcance dos verdadeiros amantes da Dama, até nisto ela tem a capacidade de escolher quem a merece, ali para a merecer há que “sofrer”. Um pinhal novo e demasiado denso repleto de velhas estevas, que, como piões atrás de muralhas de silvas protegiam o caminho até à Dama e lhe forneciam complexos labirintos secretos para se furtar. Os cães sentiam o ambiente e a nossa tensão, os Beepers iam tocando uns atrás dos outros, mas a dificuldade de progressão era evidente, poucas eram as vezes que me conseguia acercar do cão em mostra. Vezes atrás de vezes elas levantavam sem haver oportunidade de tiro, o Faruck assim como a Shepa faziam o seu trabalho, mas ali era a Dama que tinha os trunfos e ditava as regras, pelo topo dos pinheiros viam-se as Galinholas de passagem fugidas de outros caçadores, mas não é assim que gostamos delas, uma finalmente abatida e cobrada facilmente pela Shepa foi o resultado da jornada, o Paulinho com duas e uma delas com muita sorte pois não viu que a atingiu e eu indiquei-lhe onde tinha caído, o Jorge parecia um miúdo com a sua primeira bicicleta, o Uster parou-lhe 11 Galinholas e veio encher um buraco que anteriormente tinha um nome, Zaza a sua antiga fiel caçadora. Fica para recordar uma jornada que teve 5 pássaros abatidos para os 3 e onde num pequeno pinhal eu vi diferentes, cerca de 12 a 15 Galinholas e que certamente vou guardar na memória para sempre, talvez este tenha sido o local mais parecido com os filmes da Crimeia, mas mais ainda, com o melhor dos meus sonhos, algo que há bem pouco tempo julgava impossível.


6-12-2007

O impensável!


Uma jornada a atípica, pois esta é a palavra que melhor retrata o que se passou, embora a escassez de Galinholas não seja algo de novo, até mesmo uma jornada sem levantes não me é desconhecida, mas a zona em questão que eu e o cão tão bem conhecemos e onde já caçamos muito e onde há sempre alguns pássaros, se mostrou despida do sei tão habitual manto verde. Abates de pinhos e desmate para protecção dos fogos, são sempre inimigos da Dama. Desta vez nem um levante nem um rasto, simplesmente nada. A reter apenas 3 paragens do Faruck a coelhos, lances bonitos que não foram completados devido ás imposições do couto, que respeito.


8-12-2007

Maracha uma sina.


Dureza e beleza são as palavras que melhor retratam a jornada, pois a dureza da zona onde se encontram as Galinholas contrasta com a beleza do local, quase impenetráveis clareiras entre choupos e silvas fazem do local o quartel-general da Bela Dama onde ela se refugia.
A jornada começou de forma idêntica á semana anterior no mesmo local, embora agora ser feita a dois, cambiando um dentro outro fora a bater toda a mancha que se situa ao lado da ribeira, foi à Shepa que calho o primeiro levante. Não dando paragem ou por inexperiência da cadela ou por vontade da própria ave, 2 tiros errados e a primeira da manhã estava no ar, tinha esquivado por pouco e rodado para trás, decidimos procura-la e pouco depois demos com ela levantando-se novamente sem dando paragem ao rasto da cadela, rápida no levante, mas não o suficiente para se esquivar novamente ao tiro era a primeira da jornada cobrada pelo Uster. Seria talvez a “minha” Dama da semana anterior, a zona era a mesma, pensei para comigo enquanto a contemplava nas mãos.
A segunda foi abatida já no regresso e impressionantemente pelo mesmo caminho a cadela pegou num rasto que fervorosamente seguiu até a meter no ar, um trabalho espectacular da cadela que a seguiu por mais de 50 metros, que parece pouco mas que é imenso visto o local onde nos encontrava-mos a segunda abatida e novamente cobrada pelo Uster, duas cobradas e a adrenalina ao mais alto nível.
Mudando de terrenos para um ainda mais difícil e duro, onde entrar em casa da Dama era tarefa muitas vezes impossível. Uma ribeira e novamente a mesma estratégia, um de cada lado, do meu lado uma encosta íngreme do lado do Jorge a parte do vale e a importância de ter de entrar em zonas difíceis e completamente cheias de tapeçarias de silvas. Após um primeiro levante apenas indicado pelo típico grito “galinholaaa” sem tiro e sem sequer eu ver a ave, continuamos em busca de outra. Uns 80 metros à frente o cão do Jorge pega num rasto e pára uma Galinhola mesmo no centro da maracha, com alguma dificuldade o Jorge consegue acercar-se do cão e de joelho em terra consegue dar um tiro certeiro após um levante atabalhoado pelo meio de ramos e pendentes de silvas, a Dama caiu e foi cobrada por mim no topo de uma árvore a mais de 3 metros de altura pois tinha ficado pendurada nuns ramos ali à minha frente.
Fortes emoções e 3 abates, foi o resultado de uma bela jornada dura mas bela pelos vários lances vividos.

9-12-2007

Para sempre recordar.


Para mais tarde recordar poderia ser a frase que melhor caracterizava esta jornada, mas não se adequa bem ao que sinto, pois as sensações foram tão fortes que a jornada apesar de fraca em abates não me sai da cabeça, portanto para sempre recordar está mais dentro do verdadeiro espírito.
O Frick, Pointer macho com pouco mais de 1 ano teve a oportunidade dele para se mostrar nesta caça, onde esteve muito bem por sinal, bastante bem enquadrado no terreno e contido nos andamentos, muito trabalhador em terrenos de tojo pouco propícios a um Pointer, naquela zona apenas o Jorge levantou uma Galinhola com o Onil velhinho companheiro das provas, que tinha ali uma espécie de divertimento para fugir à rotina das competições, mas infelizmente o Jorge errou-a, não mais a conseguimos ver.
Depois, após uma breve e hilariante escolha do último terreno da manhã a bater, lá nos decidimos visitar os “pinheirinhos”, mais por descargo de consciência do que por forte convicção, uma zona conhecida, difícil, um cenário maioritariamente de pinheiros novos cirurgicamente plantados, com breves pinceladas de tojo e aqui e acolá uma ou outra esteva.
Entramos então na mancha, desta vez eu com o Faruck o Jorge com a novinha Setter de 7 meses a Zara, mas aqui ficou demonstrado que a experiência faz a diferença e que o Faruck é também ele um devoto apaixonado pela Bela Dama.
De repente fez-se silencio, tudo aquilo que um caçador de galinholas anseia, deixar de ouvir o chocalho e ouvir o cantar do Beeper que assinalava a primeira paragem, comigo bem posicionado o companheiro acercou-se e cortou a saída pela esquerda, ela levanta e com um disparo quase simultâneo caiu, abatida a meias mas pelo tiro do companheiro ter sido dado ligeiramente antes eu dei-lhe a ave cobrada pelo cão, o lance tinha valido a manhã.
Continuámos lá no alto, o cão possuído mostrava grande mestria e com muita calma e frieza a abordar o terreno faz novamente cantar o Beeper, estava parado coloquei-me de frente para ele, olhos nos olhos, devemos ter pensado os dois o mesmo, o sentimento era comum, ela estava ali entre nós, e estava mesmo levantou quase como que ejectada passa a grande velocidade a 50 cm da minha cabeça, virei-me rapidamente mas já era complicado e errei-a com 2 tiros, ficou no ar o cheiro a pólvora tão amargo desta vez e a frustração de não ter conseguido dar o melhor final a tão belo lance protagonizado pelo cão. A solução era prosseguir, uma tensão saudável acercava-se de nós, o cão, esse, parecia não se deixar abalar com nada, nem muito menos se deixou possuir pela nossa tensão, prosseguiu numa busca perfeita a cruzar o terreno ordenadamente e sempre sabendo onde eu me encontrava, a caçar para mim, de repente fez-se silêncio o chocalho calava-se por breves momentos, apenas o bater do meu coração ecoava naquele pinhal, interrompido pelo súbito cantar do Beeper que nos confirmava que ela estava controlada e simultaneamente nos indicava o caminho até ao cão. O que se seguiu foi algo de indescritível apenas digno de uma pintura ancestral, Faruck parado, a novinha Setter Zara em patron, eu naquela que pressupus ser e melhor posição para atirar e o Jorge na outra possível, julgamos ter o lance controlado e que ela sairia certamente para mim, mas não é, quando a enigmática ave nos dá uma lição de sabedoria e inteligência, levantando como um coelho junto ao chão após uma pequena guia do cão e rodando junto ao Jorge eliminando-me completamente o ângulo de tiro, o Jorge, incrédulo ainda rodou e atirou mas a Dama foi mais inteligente e mostrou-nos que ali manda ela.
Fica para recordar uma jornada típica de Galinholas onde os lances e as emoções superam os abates e onde o cão nos mostrou que quando há aves ele está lá para ajudar, são momentos destes que nos fazem sentir emoções que nos transportam para outra dimensão.

15-12-2007

Um feeling salva o dia.


Pouca dureza e pouca beleza era o que transparecia ao primeiro olhar no terreno, o que se veio a verificar! Um pinhal típico mas demasiado seco, mostrava que também ali tudo estava impróprio para albergar tão belo ser, o chão devia estar húmido e macio, estava seco e agreste típico de meados de Setembro, a cheirar a codorniz, a manga curta em Dezembro retirava um pouco da beleza a qualquer lance que surgisse!
Começamos pelo pinhal mas logo nos apercebemos que ali não ira-mos ter sucesso, as condições do solo eram tudo menos propícias para que as aves lá estivessem, apesar do terreno ser muito característico. Depressa abandonamos o local em busca de um outro, mais húmido e menos seco, mas tudo estava idêntico.
Guiados por mais um daqueles palpites típicos do Jorge fomos até ao ponto mais alto da herdade, um planalto despido de arvores e repleto de estevas novas com todas as condições para albergar um ou outro pássaro, o Jorge tinha grande crença naquele local, a zona apesar de ser muito alta e sem árvores e completamente ao sol, inexplicavelmente tinha o solo húmido e reunia boas condições que as galinholas tanto procuram.
Tudo se passou em pouco tempo, a Shepa em rapidamente pegou num rasto e entre as estevas fê-lo a grande velocidade até subitamente fazer uma paragem típica de Setter, linda deitada a meus pés mostrando num misto de beleza e certeza que mesmo ali diante de nós estava uma Dama, pouco depois caía a primeira tão rapidamente como levantava. Uma ave gorda e grande que ali estaria há muito tempo a alimentar-se nas devidas condições, o trabalho da cadela foi fantástico, mais um daquelas lances formidáveis que recordarei com muito gosto!
Pouco depois, o Uster pára uma que sai de umas estevas mais altas e morta sem problemas pelo Jorge. Pouco depois outra bem parada no limite das estevas como que o cão sabendo os limites do campo, fazendo as coisas no limite do fora de jogo, seguiram-se umas paragens a perdizes selvagens é lindo vê-las levantar das estevas e dar daqueles voos graciosos e rectilíneos que as caracterizam.
A zona estava feita, 3 pássaros em pouco tempo e espaço, era agora altura de ir a uma zona de maracha e ver de 2 avistadas pelo Jorge e 2 amigos na semana anterior.
Aqui sim, era terreno duro e mais lógico de ver as Damas, fizemos 3 levantes mas apenas uma morreu que se levantou ao Faruck mas que teimosamente ao segundo levante saiu da maracha do lado do Jorge, mais um cobro humano difícil no meio do silvado aguçado, que teimava em reclamar esta Dama como sua.
Belos lances e em especial o da Shepa caracterizaram a jornada.

16-12-2007

Um enigma.


Não sei se as expectativas eram altas, apenas me sentia crente num encontro com a Dama que nos tinha dado a volta nos “pinheirinhos”, começamos por uma zona onde pensávamos estar a Dama do Onil, e estava mesmo, parada desta vez pela cadela do Jorge e não atirada devido ao ângulo de saída, ficou para um segundo levante, “eu vi onde pousou!” foi a minha abrupta resposta à simultânea pergunta do Jorge “viste onde pousou?” estava à nossa frente a uns escassos 80 metros, ao trabalhos dos cães levantou entre nós, ambos disparamos, mas curiosamente naquele bosque só um tiro se ouviu, sincronizados tínhamos feito os tiros precisamente ao mesmo tempo, olhamos um para o outro e ambos encolhemos os ombros como que a perguntar foste tu que a mataste? Talvez na remota esperança de o outro dizer, não foste tu, mas nesta ocasião não havia como confirmar o autor do disparo certeiro, era impossível a Dama padeceu mas não sem nos deixar mais uma vez um enigma entre mãos, de quem era ela afinal? A forma de 2 amigos resolverem a questão foi simples, uma pena do pintor para cada um e prosseguir a caçada, pois quem a come não é relevante. Talvez seja até comida pelos dois num belo jantar de primavera a recordar o lance.
A partir daqui nada de especial se passou não vimos mais pássaros, não houve mais lances, tudo igual a si mesmo, nem nos “pinheirinhos” nem nas covas elas se apresentaram, pode ser que com este frio e chuva que se avizinham haja alguma mexida, é esperar para ver.

20-12-2007


Inesperado!

O sonho comanda a vida. Esta seria a frase mais adequada e que descreveria melhor esta jornada.
Regime livre era o cenário proposto, uma quinta-feira chuvosa, ainda ressaca de um dia anterior de pleno Inverno, com muita chuva pelo país todo, ventos impetuosos e neve nas terras altas, tudo isto fazia prever uma mexida nos pássaros, pelo menos mexeu a cabeça de muitos de nós e a minha era uma delas. 7.20h no local combinado para que ás 7.30h, começasse-mos a caçar. Antes dos “Talibans” claro, (caçadores de coelhos aos olhos do amigo Baguinho), companheiro e guia naquele dia, bom Homem, apaixonado, cumpridor e conhecedor da zona, meticuloso na caça e duro no campo como bom Alentejano que é! Mas para ele, caçadores de coelhos eram verdadeiros “terroristas” no bom sentido é claro, pois eles metiam as galinholas no ar e arrasavam quaisquer esperanças de bons lances. O Baguinho comandava as voltas, pois era bom conhecedor do local, esta época já ali tinha abatido 16 Galinholas e 3 triplas, por vezes eu e o Jorge lá no fundo confesso achar demais, mas não, Baguinho é um Sr. e o que dizia era a mais pura verdade. Entrámos na mancha, um pinhal enorme com tojo, muito, por vezes cerrado alternava com algum sargaço e estevas aqui e ali como que embelezando o leito da Dama. Pouco tempo depois de entrar-mos na mancha vejo à minha esquerda o Baguinho agarrado ao ferro com unhas e dentes, adivinhava-se mais um confronto entre velhos conhecidos, pois que entra daquela forma tão convicta de arma em punho é porque sabe onde vai pisar, tão certo como ser verdade, o Rafael “Epagneul Breton” entra em mostra, o Beeper começa a tocar e a Galinhola levanta bem a jeito da calibre 20 do amigo Baguinho que lamentavelmente estava travada, as palavras azedas foram entoadas, aí estava o primeiro lance, como compensação pouco depois o Rafael torna a para-la longe, eu apesar de ter corrido ao encontro do Beeper não cheguei a tempo pois a Dama não quis aguardar por mim levantou aos cães mas larga, não lhe toquei em nenhum dos 2 tiros.
O objectivo agora era continuar e procurar por mais, era agora a vez do Faruck que numa zona que “cheirava a pássaro” pegou num rasto até meter no ar uma galinhola mais arisca que não deu paragem, fiz um tiro e esperei que ela cai-se pois ia cambaleando e com o cão no seu encalço à espera que tomba-se, mas o obvio não aconteceu ela conseguiu prosseguir e passar o cabeço, era tempo de unir forças e tentar cobrar uma peça que julgamos e tudo fazia parecer que tinha caído bastante mal tratada, mas o azar parecia não nos abandonar, tudo foi passado a pente fino e nada, apenas o ridículo, o Faruck pega num rasto e os meus olhos expectantes de o ver cobrar a peça ferida e acabar com a angustia de deixar uma galinhola chumbada no campo, mas nem queria acreditar, em vez de uma galinhola ferida era sim uma outra ou a mesma também numa zona típica que levantou ao cão e eu como que por descargo de consciência ainda fiz 2 tiros mas nada, talvez fosse a mesma, pois esta ave carismática já não é a primeira vez que me ilude com as suas capacidades teatrais, de ao som do disparo se mandar para o chão parecendo um cair de ave ferida, e logo depois levanta novamente intocável, coisas que vamos aprendendo. Era tempo de deixar a zona e tentar mudar a sorte, deixando para trás aquilo que nenhum caçador educado gosta, uma peça ferida, ou não.
Mais uma caminhada e mais uma Dama arisca, eu à moda de treinador mudei de estratégia e tirei o chocalho ao cão, agora apenas e só o Beeper, o Baguinho avisa-me que estávamos no tentadero de uma toureira, uma velha conhecida que já por varias vezes o tinha “toureado”, levando sempre a melhor de forma digna de sair em ombros pela porta grande. Seguidamente atira a uma e levanta-se outra, não queria acreditar que haviam tantas galinholas, tão sabidas e ariscas naquele pinhal, decidimos procurar uma delas, o Beeper do Rafael toca e tudo desperta outra vez, rapidamente alcançamos o cão mas mais uma vez ela já tinha saído, eu via pouco mais à frente um pequeno aglomerado de pinheiros novos com mato apetitoso no meio, ladeados por um caminho que me despertou o instinto, o Faruck deve ter sentido o mesmo, entra e fica parado, estático de olhos vidrados, ela estava controlada, saiu-me boa e estava feito o primeiro abate.
Continuámos e numa zona básica sem características o Faruck pega vigorosamente num rasto até fazer uma paragem embelezada por um patron frontal do Rafael, bela moldura ela da um salto de peixe e pousa meia dúzia de metros à frente, meto o Faruck a guiar até ela para a por no ar, sem grande historia a segunda abatida, novamente com prova de grande desportivismo e espírito “Bécassier” Baguinho felicita-me com um aperto de mão, com a outra em sinal de respeito segurando o seu chapéu.
Era tempo de continuar, fomos então a uns pinheirinhos novos daqueles que cheiram a pássaro, e que eu tão bem conheço, mais 2 paragens do Faruck e 2 levantes rápidos e impossíveis, como dizia Baguinho “aí dentro só à Rambo”.
Era tempo de almoçar, breve pois a jornada prometia e não havia tempo a perder. Regressados com os cães mais recompostos após alguma comida e água, prontos a darem-nos mais momentos únicos, tínhamos agora a companhia do Jorge que apareceu, qual predador cheirando o sangue no ar. O dia era meu, o Faruck faz uma paragem brutal numa zona muito nua junto a um pequeno caminho, novamente aqueles olhos a dizerem ela está aqui agora é contigo, um levante rápido numa zona limpa que facilitou o tiro, a terceira do dia e uma alegria desmesurada rompia o meu rosto.
Daqui para a frente apenas conduzia o cão, não mais vi mais nenhuma, apenas o Baguinho teve lances, uma atirada que cai nuns fetos e onde o Rafael fez um cobro magnífico, a outra já com o carro à vista, bem morta e onde o Baguinho se deu ao luxo de brincar com o Jorge, “Jorge quer fazer-lhe uma festa?” foi a frase, a gargalhada era geral naquele pinhal. Boa educação e grande espírito Bécassier marcou um dia repleto de lances onde mais alguns sem grande história existiram mas que aqui não os mencionei, novamente o Faruck em grande, capaz de dia após dia me surpreender e de reclamar o seu espaço nos meus sonhos a cada noite que passa.



22-12-2007

O nariz é do cão.

Mais uma investida em Grandola a ver o que dava, as expectativas eram muito baixas à partida, começamos pelo obvio, a maracha, mas devido à chuva o solo estava com demasiada agua, uma breve sortida dentro e fora e rapidamente percebemos que ali não valia a pena, era tempo de rapidamente trocar de zona, fomos então para a cerca, mas aí a elevada densidade de coelhos meteu os cães tresloucados, colados a infindáveis rastos que os desviavam do objectivo principal para que ali estavam, decidimos ir procurar uma velha conhecida numa maracha ali próxima, mas também ela nos tinha deixado, a melhor solução era mesmo almoçar e rumar rapidamente à para cima a terrenos mais propícios.
Primeiro local a ver foi a zona dos Pinheirinhos a ver se uma velha conhecida e muito toureira estava lá. E estava mesmo, parada pelo Uster com um patron do Faruck saiu-me mais perto de mim, só a ouvi pois tapou-se muito bem, pouco à frente o Uster pára-a novamente e ela sai já desligada do cão entre ele e o Faruck direita a mim mas com o caminho interrompido por um tiro certeiro do Jorge, feitas as devidas homenagens e comentários lá seguimos.
Trocamos para outra zona onde também era casa de outra Dama, foi o Faruck a para-la mas lamentavelmente não cheguei a tempo de a ver sair, o tojo denso limitava o caminho e atrasava o encontro que acabou por ser só do cão.
Pensamos então ver novos terrenos onde não tínhamos ainda caçado este ano, a zona era boa, muito parecida com os pinheirinhos, o Frick era o escolhido, o tempo passava e nada apenas ecoava na minha cabeça o pensamento de estranheza por não estar ali nenhum pássaro, quando o Frick pega numa rasto mesmo no limite da mancha e levanta uma Galinhola era o seu primeiro encontro com uma Dama, eu estupidamente não quis acreditar no cão por ele ser novo, por o dia estar a correr mal e mal posicionado tive de correr para ter uma brecha para atirar 2 desesperados tiros à espera de um milagre que resolvesse repor o meu erro infantil de não acreditar no cão, mas não, era um dia para esquecer e voltar para casa sem nenhum abate e com a tristeza de não ter conseguido dar o melhor seguimento ao primeiro lance do Frick, fica a lição importante, são os cães que têm o nariz e ele existe para alguma coisa sejam cães velhos ou novos.

23-12-2007

Assim até parece fácil.


Mais uma voltinha rápida ao pinhal onde tinha tido uma jornada de sonho com o Baguinho. Desta vez mais tarde e com o Jorge a volta começou como a anterior, mas sem as indicações sábias do Baguinho depressa nos embrenhamos por um terreno demasiado igual sem conseguirmos encontrar a mancha desejada, onde eu, na semana anterior tinha visto mais pássaros, a solução residia em ir caçando ao mesmo tempo que palmeavamos terreno esperando encontrar a tal mancha encantada. A solução foi a melhor pois o Uster parou a primeira abatida sem dificuldade pelo Jorge, a primeira estava feita e naturalmente como habitual instalava-se um sorriso rasgado na cara dele.
Mudando de zona entramos por um corta-fogo onde de arma aberta ia-mos os dois à conversa até uma zona mais adiante de pinhal mais velho e com aparentes melhores características, quando o Faruck a escassos 20 metros do caminho fica parado num pequeno arbusto de mato preto, uma zona aparentemente fraca para estar ali um pássaro, o beep toca, eu fecho a arma e dirijo-me ao cão, o Ustrer patrona e a Dama sai, um tiro e um cobro limpo assim até parece fácil. O Jorge, sem pagar bilhete, viu tudo da plateia, um espectáculo fantástico, rodeado de eficácia por parte dos cães.
Daqui para a frente não vimos mais pássaros, não houve mais paragens nem levantes, era hora de ir embora e deixar aquele pinhal mágico para daí a uma semana fazer uma última jornada.

27-12-2007

Haja pássaros.

Era a segunda vez que caçava nesta herdade, da primeira, apesar das enormes expectativas as coisas não me tinham corrido bem, nem a mim nem a ninguém do grupo de 4 que caçamos lá.
Desta vez as coisas foram um pouco diferentes, entramos na mancha, calhou-me por sorte ficar à direita do Carlos Lopes que fazia a ponta que guiava uma pequena mas ampla linha de 4 caçadores, pouco depois a novinha Zara pára a sua primeira Galinhola numa zona húmida e mais alta de onde me encontrava, um tiro fácil e a primeira do dia no chão, o Carlos chama-me para eu fazer uns pequenos vales com bom aspecto como que se adivinha-se o que seguiria e o impensável acontece, há então um primeiro lance e uma galinhola abatida sem aparente dificuldade, mando cobrar e quando o cão vem com ela na boca levanta-se outra que estava a pouco mais de 2 metros onde levantara a primeira, incrédulo faço ainda o único tiro que tinha na minha justaposta, mas errei-a, estupefacto e maravilhado vejo-a graciosamente afastar-se de mim, mas do mal, o menos, tinha já uma no saco.
Levanta-se então outra aos cães que não deu paragem, apesar de estar a tiro decido não atirar pois não era digno de tão belo ser, especialmente numa mancha tão boa que me dava garantias de segurar os pássaros, a decisão foi recompensada, pois como eu imaginei ela estava no final da mancha na extrema do terreno, parada pelo Faruck de uma forma maravilhosa e firme a que se juntava a Zara num belo patron, cena já habitual, a novata patronar o mestre, a Galinhola parecia gostar do cenário e por nada queria deixar aquele ultimo reduto, um chaparro tirava-me do sério e disputava comigo o melhor lugar na primeira fila para a ver sair, roubava-me o ângulo ideal para fazer o tiro, decido então meter-me na cola do Faruck que imóvel deveria achar estranho tanta indecisão e movimentação minha para escolher o local ideal para atirar ao pássaro, ela teimava em não levantar, comportamento típico de uma Galinhola encurralada na extrema do terreno sabendo perfeitamente o que lhe estava destinado, ela levanta obrigada, pois tive de entrar emanação a dentro para a meter no ar, sai rápido, tão rápido como o meu primeiro tiro errado, um tiro demasiado estúpido que me meteu a tremer e que apesar de um segundo tiro certeiro e do cobro do cão teimava em continuar, o Carlos a ver tudo ria-se daquele tiro tão impetuoso, mas tudo acabara bem para mim e mal para a Dama, a segunda no saco e um sorriso de orelha a orelha que contrastava com a cara de azia do Jorge e do Mário que lutavam contra Galinholas blindadas, à prova de chumbo! Eu conheço a sensação, e também não gosto!
Eu e o Carlos vimos outra a pousar mas deixamos e indicamos aos 2 zerados e azarados do grupo onde ela tinha pousado, saiu ao Mário, mas mais uma vez a errou, a Benelli por pouco não ficou colada ao chaparro mais próximo, como que indicando que ali jazia a paciência de um Becadero, a aura daqueles 2 metia dó, o que faz um pássaro a um Homem.
Decidimos dividir o grupo, 2 iam ao encontro da esquiva do Mário, eu e o Carlos a uma das que deixamos ir.
Eu fiz agora a ponta direita o Carlos ia junto de mim, de repente ouve-se um beep beep, era o Faruck parado com ela num caminho virado para um pequeno barranco, eu em cima, ela no meio do barranco e o Faruck na estrada parado, estático, decidido, lindo e outra sem a mínima vontade de sair, o que fazer nesta ocasião? Decidi mais uma investir, levanta para cima do cão e faço o tiro e mais uma no saco, não estava em mim.
O outro grupo de 2 continuava a dar tiros mas a não cobrar nada, a “azia” do Jorge atacava em força, o Mário tinha escrito nos olhos a frustração da jornada, desfeita apenas por uma paragem da cadela e um abate fácil, os olhos brilhavam, um sorriso repentino instala-se e todos brincamos com ele, as coisas mudam instantaneamente.
Outra mancha e outro interveniente, o Jorge mata duas mas sem sofrer com uma delas que a atinge mas é cobrada ainda viva pela cadela do Carlos, a sorte de a termos visto pousar ditou o cobro, para mim restava-me deambular pelo campo treinando o cão com galinholas, pois já tinha as 3, e assim estava concluída a manhã, seguiu-se um almoço demasiado prolongado para um dia com tanto pássaro, apenas compreensível e aceitável pela boa disposição e intermináveis histórias de caçadas passadas, a tarde reservava-nos uma longa caminhada pois eu e o Carlos perdemo-nos e não fosse o guarda dar-nos uma boleia até ao carro a caminhada seria mais ao género pagão com muito sofrimento, pássaros de tarde nem velos mas fica um dia em que elas me queriam e onde mais uma vez o Faruck fez a diferença.

30-12-2007

Maravilhosa criatura.

Maravilhosa criatura é tudo o que me ressalta em mente para descrever tão belo ser, que me cativa a cada dia que passa, mesmo em dias duros e sem qualquer abate. Esta foi mais uma jornada longa e dura onde o Faruck esteve em grande destaque, apesar de conhecer já melhor este pinhal caçámos basicamente em zonas novas, desta vez ainda mais duras que o habitual! Zonas de grandes valas abruptas com tojo que me chagava ao peito, embora aberto por baixo tão ao jeito da Dama. Foi aí, numa crista do terreno que o Faruck pega num rasto, bailando entre espinhosos tojos esperando encontrar o seu par, não andaria longe, a sua cauda latejante, sinal claro da presença, indicava a proximidade, trabalho magnifico doa cão, mostrando a sua grande mestria, subitamente a Dama dá por findo o bailado e levanta, mal dando tempo de a ver, apenas o suficiente para descortinar o voou magnifico, era um pássaro grande, sabido e gracioso como sempre. A primeira não me tinha dado hipótese de fazer tiro, resguardada pela urografia do terreno foi ais forte! Tentei rebusca-la algures, mas onde? O terreno estava do lado da Dama e o tojo apertado em formação cerrada qual companhia romana bloqueava-me o caminho e obrigava-me a mudar o rumo. Era inevitável!
Uma pequena fatia de eucaliptal que cheirava a pássaro era agora palco para um segundo acto, o Rafael parado, o beeper tocava, acerquei-me do cão, não para usurpar o lance do Baguinho, mas sim porque ele é um pouco surdo e não consegue descortinar o local de onde vem o som e onde se encontra o cão, percebi que o Baguinho não estava perto, nem muito menos sabia onde estava o cão, sabia também da qualidade do Rafael nesta caça, e confiava também nele, mas desta vez o cão e a Dama esperaram tempo demais, quando cheguei junto do Rafael ela já o tinha enganado e tinha-se furtado, foi então que a vi sair aos cães na extrema dos eucaliptos, errada pelo Baguinho, mais uma que se tinha evaporado, era tempo de comer qualquer coisa pois num ápice tinham passado 5 horas de caça com apenas um abate para o Baguinho. Parecia que ela escutava os nossos planos para a tarde, enquanto discutíamos as manobras para essa tarde entre uma ou outra sandes. Perto esteve sempre uma ave, como um espião ouvindo os nossos planos rebuscados. Logo ali o Faruck pega num rasto e segue-o por mais de 80 metros, até, novamente numa extrema do terreno levantar, demasiado tapada uma Galinholas “toureira” que não me deu muito espaço para atirar apesar de ter feito um tiro que lamentavelmente errei, Galinholas já com escola, a darem muito trabalho a cães sabidos, a não darem paragem e a saírem sempre demasiado cobertas.
Pinheirinhos pequenos e muito querençudos era agora a volta e o local onde os cães e nós fomos novamente ludibriados, o Faruck pára 2 vezes e faz tocar o beeper, sem ela nunca dar tempo de me acercar para fazer o tiro, saiu sim ao Baguinho mas tão rápida que nem tempo deu para lhe atirar. Era o dia que o pássaro só queria ver o cão, eram apenas encontros a 2, 3 era demais.
Novamente de volta ao pequeno Eucaliptal e aos terrenos que o ladeiam, e aí estava ela, nem queria acreditar, a volta que nos tinha já feito dar e estava logo ali, tinha rodado e ido para a frente, para a outra mancha separada apenas pelo corta-fogo, saiu rápida e a tiro, mas errada e nunca mais encontrada. Era o dia do pássaro, não o meu! Ser caçador de Galinholas também é isto!

02-01-2008

Ano novo Galinhola nova.


Esta frase marca do dia, pois era a primeira jornada do novo ano, que eu esperava ser pelo menos tão bom cinegeticamente como o anterior, que tinha mesmo agora findado. Começámos eu e o Jorge numa zona de pinheiros, novos e bravos, aleatoriamente plantados pela mãe natureza, ladeados por novos eucaliptais com tojo e algumas estevas a comporem o quadro. Eu, dias antes a caçar aos Faisões tinha visto ali uma Galinhola, esta zona é pelos dois bem conhecida, entrámos na mancha, e pelo menos por minha parte com uma forte convicção de ver ali um pássaro, a tal já conhecida pelo menos. Fizemos toda a zona mais óbvia e aquela onde a tinha levantado dias antes e nada, tive um feeling que ela estaria num outro local, onde na época transacta com um Amigo o Frederico, tínhamos errado uma tão bem parada pelo cão. Decido investigar, o Faruck antecipa-se e ouço o beeper a tocar, o coração dispara a adrenalina sobe e rapidamente corro para o cão, mas pouco depois desmancha a mostra e segue rápido e decidido num rasto o que indicava que ela se tinha furtado e ia a pés, nestas ocasiões ele trabalha velozmente com a cauda em sintonia, como um radar é por ela me guio para saber o que se vai passar de seguida. Sabia que estava por ali não muito longe, a pés e a tentar ludibriar o cão, é então que vejo um coelho que se furta ao cão, e que estranhamente e quase como que penetra num teatro, sentou-se a não mais de 20 metros de mim, como que reivindicando um lugar na primeira fila para ver aquele espectáculo, deixei-o, não era orelhudos que procurava, além da época deles já ter fechado. Sempre de olho no cão, é então numa zona plana, pequena mas convidativa, ligeiramente abaixo de mim e à esquerda de onde me encontrava, que o impensável acontece, uma breve paragem saem perto do cão 2 Galinholas, que altas e fazendo qual aviões de guerra manobras evasivas me mostram a linda pintura no peito, a primeira passa rapidamente contornando e controlando as copas de uns eucaliptos, a segunda é abatida com um tiro rápido e de chofre a mais de 40 metros, o cão esteve simplesmente magnifico com uma paragem bonita e um trabalho de rasto que me deixou maravilhado, talvez o coelho tenha gostado também. Que lance pensava eu, enquanto me acalmava felicitando o cão e observando a ave. Um terreno lindíssimo fez deste um dos mais belos lances com Galinholas que já vivi e que jamais esquecerei!
Mudando de terrenos e de cão visitamos uma zona de pinhal velho e tojo, muito tojo onde um pássaro nos deu a volta por três vezes, andando demasiado à frente das cadelas e sempre levantando larga e fora de tiro, conhecem bem o terreno e são muito ariscas, com muita consciência do que lhes pode acontecer se derem paragem aos cães e saírem a nós.
De tarde a volta foi feita basicamente à procura da sobrevivente que me levantou pela manhã, parada uma vez pelo Faruck o beeper a tocar, tudo se repetia quase parecia um déja-vu, mas mais uma vez, fotocópia da manhã ela não quis esperar e saiu furtada ao cão, desta vez saiu ao Faruck e à Diana perto do Jorge que apenas a ouviu sair completamente tapada.
Esta foi uma jornada com apenas um abate mas repleta de lances magníficos que a transformam numa das melhores da época e que provam que a qualidade supera em muito a quantidade.

36-01-2008

Velha conhecida.


Mais uma manhã madrugadora, 6h ainda bem noite, pois, mas em ZCM há que estar lá cedo, não para marcar lugar, mas para fazer a inscrição, sortidas destas não me lembrava delas desde muito novo, onde era então companhia da minha saudosa avó, em filas intermináveis para comprar bacalhau, parece estranho, mas eu ainda sou do tempo que para se comer bacalhau era preciso ir para longas filas bem cedo e por vezes passar lá a noite. Nos dias que correm, filas destas são mais para os jovens, onde a febre por bilhetes de concertos rock ou à porta de uma qualquer grande superfície, esperando para comprar uma nova engenhoca nipónica ou um novo livro, pois é, mas esses não fogem, ao contrário da minha Dama, que me obriga a madrugar.
Depois das devias inscrições feitas, esperei um pouco, pois não gosto de caçar ás Galinholas mal raia o dia, esta ave distinta gosta de ficar alerta nas primeiras horas do dia, pois acaba de chegar da sua habitual e rotineira saída nocturna, fica algum tempo imóvel na zona onde pousa, deixando poucos rastos aos cães e tornando tudo ainda mais difícil. Sendo esta uma ZCM com alguns caçadores de Galinholas, não dá para esperar muito, corre-se o risco de chegarmos tarde à zona pretendida, e já lá estar alguém.
Conhecendo a zona perfeitamente, deixei o carro na clareira habitual, quase como uma rotina laboral, dá-me então aquela vontade de aliviar o peso interior, talvez fruto de um ar limpo e saudável e lá vou eu atrás de um arbusto que já me conhece na intimidade.
O cão, esse pelo cheiro sabe já onde está, sim sabe! Pois ali correu Km a fio, ali parou a sua primeira Galinhola, ali fez-se Becadero. O beeper na mão, as piruetas do cão, quase como que me apressando para lhe meter o colar e iniciarmos a jornada, calma digo eu como sempre, ele como sempre parece não ouvir. O vento sopra, fraco mas gélido, os dedos vão enregelando, o caminho não engana, é o de sempre. O cão aqui não precisa de ordens, nem sequer precisa de olhar para mim, o frio faz-me respirar mais fundo, o suficiente para ele me sentir, um ou outro torcaz levanta aqui e ali ao passar do cão, e a mancha principal aproxima-se. Lugar mítico de outros anos, vem-me à lembrança um ou outro lance, mas acima de tudo uma ave, uma única ave que foi sempre mais forte, que quinta em quinta feita tinha-mos encontro marcado, ela conhecia o cão, o cão conhecia-a a ela, eu conhecia bem os dois. Foram jornadas e jornadas de embates, sempre levando ela a melhor, o cão parava-a, ela sai-a sempre tapada, a zona era perfeita para albergar um destes pássaros, acabou a época e ela pelo menos nas minhas mãos não sucumbiu, Feliz por ela e agradecido, pois tinha-nos dado mais que alguma outra, sem saber ajudou a fazer do Faruck o que ele é hoje.
O Faruck conhecedor da mancha, foi direitinho à zona principal, mas nada, a sua cauda mostrava que ali ela não estava, cantinho a cantinho tudo bem batido mas nada mesmo.
Mudei então para uma zona mais adiante, onde na época anterior tinha visto duas e abatido uma, o cão vai direito ao local exacto onde na época anterior tinha parado uma que errei, eu sigo rapidamente, um pinheiro caído indica-me a certeza do local, perto deixo de ouvir o cão, instantes depois o beeepr toca, e tudo dispara, sinto o peito apertado, a boca a secar, aproximo-me do cão mas tenho de me baixar para ver onde ele estava, avisto-o virado para mim, ela deveria estar entre os dois, decido erradamente meter-me naquela que pensei ser a melhor posição naquele lance, colado ao cão, sinto-a sair, baixa, demasiado baixa sem se mostrar, complicada como sempre, imagem de marca que eu já conhecia da época anterior. Vasculho tudo em redor, sem sucesso tinha-se evaporado. Foi então que ouço 3 disparos, a angústia instala-se em mim, estranho é só um pássaro pensei eu, talvez a imagina-se minha e do cão, talvez 2 épocas e umas tantas paragens me dessem na minha cabeça direitos sobre ela. Mas não, um grupo de caçadores tinham-na abatido na mancha que fiz logo pela manhã, ela tinha afinal rodado e voltado para trás, não achei possível, pois não era uma distância normal de uma Galinhola.
Não vi mais nenhuma, a zona estava fraca, triste e com sentimento de luto regresso a casa, com a certeza que não era assim que ela queria e merecia morrer, com 3 tiros de caçadores que lhe fecharam completamente a fuga. Uma certeza levava comigo, que a recordaria certamente mais sem a abater, do que a recordará quem a abateu!

06-01-2008

Tão parecido.


Se me vendassem os olhos e só me retirassem a venda em pleno campo eu diria prontamente que estava em terras do Sado, mas não, longe disso, apesar das semelhanças serem do mais inacreditável, estava sim em terras alentejanas, terras de Mestre Baguinho, que conhece e domina há anos, a convite dele fiz todos aqueles Km sozinho, era com gosto que o fazia, apesar de não gostar de nunca gostar de viajar assim pela madrugada dentro sozinho, mas a Dama…
A ideia que me veio de imediato à cabeça e pela experiência que tinha em caçar em terras do Sado, era deixar o cão caçar da mesma forma, solto à maneira dele, à Pointer, deixa-lo procurar as baixas no terreno de sargaços. A zona apesar de muito característica estava fraca de pássaros, ou pela chuva, ou pela montaria da semana anterior, palmilhamos terreno sem fim, um sobe e desce desenfreado num terreno ligeiramente dobrado, a atenção no cão era crucial na esperança de o ver transformar a elegância da cabeça ao vento no funcional nariz no chão a seguir um rasto até dar com a Bela Dama, mas isso estava complicado só uma ou outra lebre mexiam com as emoções e faziam tocar os Beepers.
Era altura de caçar com a cabeça e pensar um pouco para tentar mudar o rumo das coisas, foi o que fiz! Decidi escolher terrenos mais altos e desta vez ironicamente mais secos, decido então ir pela crista do terreno quando vejo o cão mesmo no topo numa zona mais despida pegar num rasto desde o caminho até rapidamente ficar parado num pequeno aglomerado de mato, não tive duvidas era uma Galinhola, tento acercar-me rapidamente do cão mas ela não estava disposta a esperar e antes de eu chegar arranca, baixo pouco mais alto que o pequeno sargaço, faço um tiro certeiro mas muito largo e é cobrada prontamente pelo cão, a alegria do lance e do abate instala-se, aquela sensação inexplicável que poucos entendem acerca-se de mim, tinha valido a pena a penosa viagem solitária.
A partir daqui só de reter o enorme susto, quando o Faruck entra num mato serrado que mais parecia uma pocilga e de lá arranca uma enorme vara de Javardos qual batalhão de tanques fez estremecer o chão, a sensação foi aflitiva e arrepiante por ter o cão lá dentro, mas nem ele pensou duas vezes em dali sair rapidamente, não os vi mas deu para sentir que eram muitos e grandes, uma força e imponência notáveis destes animais, felizmente tudo correu bem, uma bela manhã de caça e mais um lance fantástico do cão que está em grande nível.