quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Diário de um Becadero. 2007 (parte 2)

17-01-2008

Em francês.


O francês dominava o dia, pois esta semana estava cá um grande Amigo do Jorge, o Sr. Michel Vassenet e a sua esposa, pessoas educadas, ambos grandes viciados em caça, cães e tudo o que os rodeia, para mim o Sr. Vassenet é o “guru” dos Pointers, a minha raça preferida de cães, ele tinha conduzido e ganho variadíssimas provas com esta magnifica raça, várias vezes Campeão do Mundo, criador reconhecido e proprietário do famoso canil La Rue Fleurie, onde todos os meus cães têm origens. Foi com muita alegria que ouvi da boca dele, grande conhecedor da raça, palavras de felicitação pelo meu cão, “le Petit Pointer”, que eu tinha emprestado uns dias ao Jorge e que o Sr. Vassenet escolheu como seu companheiro de caça nestas pequenas férias. Tinha sido uma semana em cheio para o cão, em brincadeiras diziam que “le Petit Pointer”, Faruck tinha feito vários CACIT sobre Galinhola, termos técnicos no meio cinotécnico, (CACIT a nota mais alta em competição), pois o cão tinha feito um trabalho fantástico durante essa semana, como que se mostrando ao Sr. Dos Pointers que é um Sr. cão, para mim um apaixonado pelo meu companheiro eram palavras destas vindas de quem vinham que me enchiam o ego.
A jornada começou cedo, claro que o cedo nas Galinholas nunca corresponde no cedo das perdizes ou patos, é para nós por volta das 9h. a zona escolhida era um pequeno bosque de pinheiros bravos, novos e fininhos, muito juntos com estevas e tojos pelo meio que faziam uma habitat perfeito para a Dama, e onde eu dias antes tinha errado a primeira Galinhola parada pelo Frick.
Agora novamente nas minhas mãos, Faruck trazia-me de novo uma outra qualidade e certeza e, rapidamente dá com a tal Galinhola que andava a monte há 3 ou 4 dias, um tiro longo e estranhamente nenhum cão dá com ela, e não eram cães quaisquer, era a elite dos cães de Galinholas, ZAZA a cadela Braco Almão que estava também emprestada, talvez a melhor cadela de sempre de Galinholas em Portugal, Uster grande cão de Galinholas, Faruck, Anita uma Setter muito experiente, qual deles o melhor, é como ter em campo Figo, Cristiano Ronaldo, Eusébio e Futre, algo assombrante num mesmo jogo.
Mas estranhamente todos lhe passaram por cima, e fui eu que a cobrei ao ver a galinhola dar à asa no chão, é assim também vi o figo e os outros falharem grandes penalidades e não deixaram de ser bons por isso.
Decidimos então ir ver o “val mistério” uma zona de pinhos e estevas, palco de encontros abundantes e lances e abates fantásticos em outros anos com o Jorge. Para mim o nome não poderia estar mais adequado, pois a palavra mistério é a que melhor se enquadra, visto nunca lá ter visto uma Galinhola, e este dia não seria excepção.
Vou então e para não sermos muitos e não termos de caçar como nãos gostamos, em linha, para uma zona diferente, mas que tanto gozo me dá, os pinheirinhos. Sozinho naquela zona com Faruck se é dia, vou-me divertir, mas apenas uma lá estava, como que a ultima guardiã de tão magnifico castelo. Vejo então o cão fazer um rasto que desta vez sinceramente julguei ser de coelho, vejo-o por entre os pinheiros e ligeiramente afastado ficar parado, levantou-se então uma Galinhola rapidamente sem sequer deixar o beeper tocar, arisca sem vontade de tombar. Chamei o Jorge para trazer o Sr. Vassenet e a esposa, para que juntos a procurasse-mos e quem sabe eles a matassem, mas nada, mais uma daquelas que na Apostiça não dão segundo levante. Acabou por ser abatida outro dia pelo Jorge e parada pelo uster no mesmo local do primeiro levante do Faruck.
Era hora de almoço, entre historias onde apenas haviam dois protagonistas, Cães e Galinholas, lá ia-mos devorando uma grelhada.
Era hora do segundo tempo, a tal, esquiva, blindada que vive na maracha. De botas e sem arma lá fui eu com o Faruck, pois esta requeria algum jogo de bastidores, pois era demasiado esquiva, tinha de ser trabalhada por um bom cão, que soubesse e gostasse de nadar em águas frias de pleno Inverno para passar a ribeira a nado e entrar nos seus domínios, uma pequena ilhota, muito fechada com salgueiros e silvas onde ela fez sua guarida, cá fora da maracha ficavam o Michel e a esposa, à espera do ouvirem o beeper. E assim foi, Faruck entra a nado qual fuzileiro bem treinado, a abordagem foi cautelosa, como que sabendo da mestria da opositora, eu entro atrás do cão, galgando a água por cima de um tronco de um velho salgueiro caído que ali estava quase perfeito fazendo de passadiço entre a realidade e o imaginário.
O cão deixa-se de ouvir, o beeper rompe o silêncio, todos em redor ficam de olhos postos naquela pequena ilha, ela estava ali, mas no meio daquele terreno sujo, como que por magia ela consegue iludir-nos e desaparecer por entre a vegetação cerrada. Foi mais forte!
Refeitos da emoção lá vamos nós para outra zona, de tojo, fechado e duro, procurar outra dissidente, que estava onde menos se esperava, trabalhada pela Zaza, e abatida num tiro simultâneo luso-português, um cobro complicado mas com manha lá se conseguiu. Depois era hora de ver como andava de pássaros noutras paragens, menos batidas, mais sujas e complicadas, 2 erradas pelo Sr. Vassenet foi o de mais relevante.

20-01-2008

Uma manhã de Domingo.

Uma manhã fria de um domingo de Janeiro na Apostiça foi palco de mais uma jornada calma sem muitos apertos no coração.
Escolhida a Shepa para companheira de jornada, para dar descanso ao Faruck após uma semana de caça intensiva, proveitosa em lances protagonizados por ele, mas que sem duvidas lhe deixaram marcas, o cansaço era evidente portanto decidi deixa-lo uns dias em casa a recuperar para outros embates em que ele é mais necessário.
A zona escolhida era a mesma onde o Michel tinha errado 2 pássaros dias antes, pinhal novo com muita silva e tojo cerradíssimo ladeado de eucaliptal tornavam a coisa dura e difícil.
A primeira saiu ao Jorge levantada pelo Talof, um Braco Francês de competição que nunca tinha caçado ás Galinholas mas as suas aptidões para esta caça eram latentes.
Palmeando terreno, gemendo e cerrando os olhos aqui e ali a cada arranhão ou picadela de silvas ou tojo, lá fui andando, confesso que a motivação era pouca, não acreditava no terreno, achava mesmo para uma Galinhola demasiado impenetrável, mas ser caçador de Galinholas é isto mesmo, espírito de sacrifício. Talvez eu tivesse uma pouquinho de razão, pois apenas vi um pássaro numa zona mais limpa e com melhores características, curiosamente já ao cair do pano e com o carro à vista. A Shepa lá desencanta num rebuscado arbusto uma bela ave de bico, que num tiro rápido cai pouco à frente, pronta a ser cobrada alegremente pela cadela. Fui tudo e talvez mais do que esperava naqueles terrenos tão inóspitos.

22-01-2008

Complicado é pouco.


9 da manhã e a adrenalina de sempre acerca-se de mim, pergunto-me até quando esta pequena ave de Bico me fará sentir tamanhas emoções?
As zonas e os companheiros de caça, os mesmos de sempre, velhos hábitos que não mudam, eu e o Carlos Lopes, o Jorge e o Mário faziam os dois grupos que distantemente próximos caçávamos.
Um cabeço conhecido, uma zona que para mim era novidade, saio com o Faruck, que pouco depois me pára uma Galinhola, percebo pela expressão do cão que se estava a furtar a pés, o beeper toca, o Carlos acerca-se assim como o Mário, digo ao Carlos que, ela está a furtar-se ao cão, leio isso na sua cauda pestanejante, mudo e volto a mudar de posição à espera do melhor ângulo de saída da ave, mas esta tarefa torna-se complicada, pois o cão parado mudava constantemente de posição, o que nos leva à velha questão, será o cão a parar a caça, ou a caça a parar o cão!? Ela sai então, completamente tapada por um velho pinheiro, a minha reacção foi de perplexidade, o cão olha para mim e eu por trás dele vejo sair uma outra Galinhola, não sei porquê, que admiração há numa galinhola sair furtada e completamente tapada? Nenhuma! Cada lance tem uma reacção característica, este foi o espanto e ter dito ao Mário “Calma, calma” ele não entendeu o porquê das minhas palavras, talvez eu inconscientemente já visse aquela Galinhola num outro lance mais à frente, talvez e estupidamente a acha-se minha propriedade, mas tal não sucedeu, não demos com nenhuma das duas.
Pouco mais à frente, presencio o bailado mais fantástico alguma vez presenciado por mim. Um pequeno aglomerado de árvores, pinhos e chaparros, poucos, com algum sargaço pelo meio, numa ponta encurralada entre uma vedação e um caminho, o Faruck começa a pistear notoriamente um pássaro, que pelo meio do sargaço lhe trocava as voltas, eu agarrado ao ferro sentia que ela ia sair a qualquer momento, não tenho muitas palavras para descrever a beleza da cena. Pouco mais de 10 metros quadrados de sargaço, numa clareira entre as árvores, uma esteva maiorzinha embelezava a coisa, o cão louco a sentir a ave, deslizava e parava, desfazia a paragem e voltava a parar no outro lado, e a cena repetia-se, quando, subitamente, pára de frente para mim, aqueles olhos vidrados, em transe, faróis num corpo imóvel indicavam que ela estava ali entre os dois. De repente a cauda do cão move-se tão lentamente que apenas eu a sabia entender, o pássaro estava novamente a furtar-se! Nem queria acreditar, senti-a então a sair nas minhas costas, a menos de 1 metro dos meus pés, virei-me rápido mas já só consegui um pequeno vislumbre ténue entre ramos dum velho chaparro, que quase dava a ideia que se moveu para proteger a Dama e lhe assegurar a fuga. Que lance fantástico, que trabalho do cão, que Galinhola esperta, tinha-se furtado entre mim e o cão, no meio do sargaço tinha-se metido nas minhas costas e de uma forma limpa foi mais forte que eu e o cão! Ela esteve melhor, de uma forma merecida ficou para viver!
Sem que tivesse sorte nos abates, tinha comigo a sorte de desfrutar dos mais belos lances, eles, os companheiros, faziam um abate aqui e ali, com lances à medida de cada um.
Mudamos então de zona, para uma ladeira alta perto de uma ribeira, o chão mostrava que por ali tinham de andar pássaros, era impressionante o numero de buracos e raspados por toda a zona, parecia que um batalhão de pássaros ali tinham vasculhado toda a zona até chegarem ao ultimo verme, nunca tinha visto nada assim na minha vida, já tive a oportunidade de em certas zonas verificar ao vivo a indicação de pássaro pela zona toda esburacada, mas assim não, era demais.
Mas apenas uma nos saiu, estranho, tanto buraco não era certamente de uma só ave, mas infelizmente uma era a conta, ainda por cima dividida por dois, ela sai ao Carlos é chumbada por ele, e também por mim quando me passa perto, vimos que cai lá em baixo da ladeira, chumbada pelos dois de quem seria esta ave, não que isso constitui-se algum problema, mas só poderia ser de um, resultado seria daquele que o cão cobrasse, após alguma dificuldade da zara e da Shepa, duas Setters más cobradoras, calhou-me a mim em sorte, era a Shepa que vinha com ela na boca, estava então resolvido o enigma.
Não foi um dia de grandes abates para as Galinholas paradas, mas lances bonitos, esses tive os melhores sem dúvida.

27-01-2008

Com os mais novos também se aprende.


Uma Zona de caça municipal conhecida era mais uma vez o local escolhido. Feita a inscrição pedem-me se me importava se comigo fosse um senhor que conhecia mal a zona. Simpático o senhor, com 3 Bracos iniciava-se esta época nas Galinholas, com um abate apenas contra os meus 19, estranhamente olhava para mim com um ar de intrigado com um pouco de interesse à mistura, ansioso por saber o meu segredo para o sucesso. Directamente surgiu a pergunta, “como tem tantas Galinholas, onde as mata?” a minha reposta foi como sempre evasiva, educadamente lá respondi sem entrar em detalhes que tinha algumas boas zonas onde caçar, que perdia muito tempo nesta caça e que tinha bons cães, sintetizei a verdade.
Com o passar do tempo, conversa aqui conversa ali, lá me fui abrindo mais, libertando um pouco a minha carapaça rígida que me caracteriza quando conheço pessoas novas. O Sr. sempre simpático com um ar de ternura e saudade, diz-me o seguinte: “sabe você é jovem e faz-me lembrar o meu filho que tinha a sua idade neste momento se fosse vivo”. Eu devo ter feito uma cara estranha, não esperava, mas o Sr. Andava ás Galinholas por motivações distintas das minhas. Era para ele um escape, uma forma de se libertar da prisão de memórias de um filho falecido que perdera uma batalha contra o cancro. Eu por sua vez tinha-o feito relembrar o seu filho, numa altura que não era suposto, mas, não sei se quem perde um filho consegue sequer passar um minuto abstraído de pensamentos marcantes.
Levei-o à minha zona mais quente, não sei se por solidariedade ou uma espécie de ternura, ou pela ainda maior vontade minha de lá ir ao “meu” cantinho mágico, talvez um pouco das duas.
O Sr. Sempre muito presente tentava saber e colher o máximo de informação possível, pois tinha gosto por esta caça, mas notoriamente pouco conhecimento, eu dentro do possível tentava ajudar, até lhe dei com gosto um dos meus cartuxos especial Galinhola, para ele experimentar, o qual vim a saber depois que esse mesmo cartuxo tinha abatido uma Galinhola.
Apesar da minha boa vontade, não estava nenhum pássaro no meu cantinho. Decidimos então ir para uma zona nova que desconhecia e que nem sabia que fazia parte da ZCM.
Pinhal novo, com alguns poucos Eucaliptos, uns matos de bom aspecto e mimosas baixas e muito juntas formavam uma zona espectacular para Galinholas. Infelizmente nada, só no final da mancha o Faruck pega num rasto, mas que pouco depois desliga, eu fiquei com a sensação que estava ali um pássaro, e como tal vou para trás para a zona que achava possível caso o meu pressentimento fosse verdadeiro, estaria a ave.
Estranhamente foi numa baixa com algum pasto rasteiro sem matos crentes e muito despida que o cão me faz uma guia frenética e fica parado de frente para mim num matinho pequeno com não mais de 10 cm de altura, sai a galinhola já tapada pelo único arbusto capaz de a esconder, mas sem hipótese rapidamente atiro e abato a ave.
O Sr. Sempre atento fica extasiado com o trabalho do cão e seguidamente dá-me os parabéns com o tradicional aperto de mão becadero.
Depois de caminho até ao carro, foi altura de um jovem ensinar um pouco do que sabe a alguém mais velho e com muitos mais anos de caça. Espero que tenha dado alegrias e que tenha feito relembrar coisas boas a tão gentil senhor.

03-02-2008

O bailinho da Madame.


Uma manhã fria de Fevereiro trazia-me à memória lembranças intemporais de lances vividos pouco tempo antes, naquela mesma zona, não sei porquê mas as expectativas não eram muitas, a zona sempre foi fraca em pássaros, apenas tinha algo de bom, as características e a beleza do terreno proporcionavam sempre lances de rara beleza.
A mancha era a mesma onde tinha vivido o lance mais belo da época, onde com um Bom amigo o Frederico tínhamos presenciado um lance fantástico do cão, numa Galinhola errada a meias, e onde com o Jorge tinha morto a minha primeira da época passada, parada pelo Faruck, que aguentou todas as entradas forçadas de 2 cães novos.
Pensando bem até tenho tido alguns lances naquela mancha, agora que faço contas não são assim tão poucos.
Faruck foi mais uma vez o escolhido, não vá ter entrado pássaro com o tempo que fez nessa semana, e já começa a ser hora de aos poucos elas começarem a regressar a casa e fazerem umas paragens por estas bandas, a zona é boa para galinholas de passagem, pois alberga todas as características que uma Galinhola necessita, é um plano alto, bastante húmido, terreno irregular repleto de vegetação típica. “Talvez tenhas sorte, este tempo faz mexer muito os pássaros” foram as palavras matinais do Jorge quando nos despedimos, pois ia de viagem para mais um ano de provas na semana de Andaluzia.
O ritual é o mesmo de sempre, o carro parado no local do costume, o cão sai do carro com a mesma alegria de sempre (ainda há quem pense que um cão de caça não se diverte, é porque nunca viram de perto!) meto-lhe o beeper, visto o colete, pego na justaposta e lá vou eu, com a convicção e paixão habituais. A mancha já não tem segredos, é feita sempre da mesma maneira, minuciosamente bato eu e cão todos os cantinhos conhecidos, até que pouco depois num local “quente” o cão pára a primeira, esta levanta direita à copa de um eucalipto mas depressa tomba perto do cão que prontamente a cobra, era uma das clarinhas, linda, tão linda! Saco do telemóvel e ligo de imediato para o Jorge que ia em viagem, muito antes de sair de Portugal, já eu tinha uma Galinhola aconchegadinha no saco de veludo. “Jorge a Primeira já caiu!” ouve-se do outro lado um suspiro, indicativo de uma consciente nostalgia e saudade de quem está longe e não pode acompanhar, a resposta não podia ser outra “então como foi?” por telefone tive de contar o lance na integra, faz parte, quando não caçamos juntos temos por habito ligar um ao outro e contar o lance, tipo relato telefónico, por vezes ao vivo e em directo, pois por uma ou outra vez por telefone ouvimos de repente o beeper do cão tocar, e a celebre frase, “Espera aí que vou atirar” e com o telefone no bolso ou como uma vez no meu caso agarrado com os dentes, completamos o lance, o outro longe acompanha o lance por telefone. O Jorge refeito da notícia lá segue caminho, convicto e consciente que para ele a época tinha findado.
É tempo de continuar, se ali estava uma Galinhola naquele local, é provável que estivesse outra na melhor zona, o cão entra então na zona melhor, sinto o cão fixado num rasto de pássaro, rápido faz a zona de tojo e por trás de mim levanta-se uma galinhola esquiva. Conhecedor do terreno imaginava onde poderia estar, vou lá com o cão, pouco depois estava parada, sai rápida mas estranhamente erro um tiro fácil, cerro os dentes, chamo-lhe um nome feio, engulo em seco e lá vou eu mais o cão, tentar de novo. Mais uma vez tinha uma noção de onde ela poderia estar, estava mesmo, o cão pára-a a uns escassos 30 ou 40 metros de mim, ela não se deixa chegar, levanta novamente. Pouco depois dei novamente com ela, ouço o beeper tocar, mais uma vez ela não me deixa chegar perto e levanta mesmo à frente do cão. A história repete-se por 9 vezes, o cão a para-la ela a não me deixar chegar e a levantar sem me deixar acercar do cão. Mudei de estratégia, deixei o cão a parar e ir pela frente, mas nem assim, ela foi sempre melhor que nós. Nem mesmo numa zona que bem conheço e bastante afastada da zona que inicialmente estava consegui atirar, foi sempre mais forte, mais esperta, certamente já trazia de outras bandas muita experiência com cães e caçadores, ensinamentos valiosos para ter saído vitoriosa, espero que nada lhe aconteça até à sua zona de nidificação e que nos encontremos aqui na próxima época.

07-02-2008

Com muita fé!


A época já vai larga, as expectativas eram altas, Fevereiro era já altura dos regressos, era hora do regresso a casa para muitos migradores, o tempo tinha mudado durante a semana o que faria certamente mexer os pássaros, na Herdade as inúmeras marrequinhas tinham-se já feito ao caminho, como emigrantes que são tinham já muitas delas iniciado o regresso, havia por lá uma mínima parte do que lá andava na semana anterior, era um sinal indicativo que os ventos favoráveis levavam já de boleia muitas aves migratórias. As Galinholas com sorte teriam entrado na Herdade, pois as que estavam mais a sul do país teriam de fazer uma paragem e nada melhor que esta Herdade para um curto descanso, entre as várias etapas.
Rapidamente verificamos que as nossas expectativas não estavam goradas, lance atrás de lance, Galinhola atrás de Galinhola, elas iam tombando.
As zonas as de sempre, principalmente aquela que já lhe chamávamos “o cantinho do Faruck” as suas marcantes prestações aos olhos de todos naquele local fizeram com que aquela zona fica-se assim apelidada.
Mais uma vez o Faruck esteve muito bem no “seu” cantinho, eu junto com o Carlos fazíamos um grupo, o Manel e o Mário outro e assim iniciamos a jornada. Aqueles terrenos amplos, bem arejados e de sargaço novo são bem ao jeito do nariz de um cão britânico, os nossos cães meus e do Carlos (Setter e Pointer) fazem ali a diferença, os galopes, os narizes no ar são bastante úteis. O Faruck após uma época de treinos de competição, sempre bem centrado no terreno, fazia a diferença. Ouve-se um beeper, era a primeira do dia todos ficam com os sentidos alerta, para lá da dobra de um cabeço estava o meu cão, corro para tentar abrir as hostes, mas ela sai antes de me acercar do cão, uma lebre sai-me também debaixo dos pés incrédula afasta-se pensando para ela o que leva esta gente a não lhe atirar, malucos, não, Becaderos. A Galinhola essa tinha passado a vedação para o outro lado, chamo o Carlos e decidimos lá ir ver dela, a passagem era diferente, pelo chão, debaixo da rede, pelos buracos abertos pelos javardos e que lhes servem de passagem, valia tudo desde que lá fossemos parar. Já no outro terreno do lado, de iguais características apenas separado por um caminho começamos a rebusca, Zara e Faruck passavam alternados por mim, indiferentes um ao outro, sabiam o que lhes era devido. De repente Faruck faz uma derrapagem a escassos metros de mim, em ponto pensei eu, lindo, que graciosidade, Zara faz um típico e curto deslize e fica num largo patron, espectáculo, que quadro, um espaço despido e uns escassos 5 m2 de sargaço pregados em terra nua indicavam a localização exacta da ave, “só podia estar ali, pensei” e estava! O Faruck faz um pequeno deslize enquanto o som do beeper me aquecia a alma naquela manhã fria de Inverno. O Carlos observava de não muito longe tamanho espectáculo. Ela levanta completamente à mercê da minha justaposta, bem cobrada tinha-nos proporcionado momentos únicos de rara beleza.
Ouvia-se um tiro não muito longe, o Manel tinha também ele abatido a primeira.
O Mário vai então mais acima numa zoa já seca e desprovida de sentimento pelo pássaro, abate a sua primeira na crista dum cabeço, enquanto isso o Carlos perto de mim, tem um enorme navalheiro parado pela cadela, recomposto lá seguimos.
Separamo-nos então um pouco, eu e o Carlos decidimos de comum acordo revasculhar o sargaço já feito. Os dois temos algumas coisas em comum, somos pessoas simples que vimos a caça de maneiras semelhantes, caçamos bem juntos, temos o gosto talvez raro nos tempos que correm de viver o lance do companheiro com alegria e intensidade como nosso se trata-se, não nutrimos qualquer sentimento de inveja pelos lances vividos pelo companheiro, a beleza de um lance está sempre lá independentemente do cão que o protagoniza e da arma que o finaliza, quer ele ou eu tivemos pássaros abatidos que nos saíram a tiro mas trabalhados pelo cão do outro, não nos sentimos ofendidos por isso, sinto por ele uma grande Amizade apesar de nos conhecermos à pouco tempo, não é normal em mim, pois sou reservado nestas coisas e demoro muito a abrir-me mas, senti nele muita sinceridade nos seus actos e nas suas palavras, o seu bom senso é latente, não há muita gente assim nos dias de hoje!
Regressando à caça. Eu e o Carlos paramos para ponderar a volta, e decidimos que deveríamos fazer a volta que o Mário tinha feito, não sei se por não confiarmos nas cadelas dele, se um feeling, se apenas uma vontade de fazer aquele terreno novamente. O que é certo é que pouco depois o Faruck pára mais um pássaro, que me saiu larga mas é abatida pela Silver Hawk do Carlos, como bom atirador (chamado ao campeonato da Europa) poucos tiros o vi falhar!
Mais a cima a cena repete-se e mais um pássaro trabalhado pelo Faruck que facilmente abato.
Um aqui outro ali todos ia-mos tendo bons lances sempre carregados de emoção, acabei o dia com 3 abates, no total conseguimos 9 Galinholas em 12 levantes, era certamente a ultima boa jornada da época.
Devaneios finais.

Sem Internet nem televisão devido a este mau tempo, um temporal à antiga, sozinho em casa numa noite fria e chuvosa, lembrei-me de escrever o ultimo capitulo deste meu diário de galinholas desta época que ontem findou.
Esta foi uma época proveitosa onde tudo excedeu as minhas próprias expectativas, tinha como objectivo pessoal e já arrojado fazer 12 abates para fazer a “alternativa” de “Becassier” mas depressa percebi que poderia conseguir algo mais ambicioso, pensava dada altura para mim que talvez fosse possível ultrapassar os 12 pássaros, claro que tudo isto foi procedido de um inicio de época bastante assustador, pois apostei tudo na Bela Dama e ela teimava em faltar ao nosso encontro, mas por fim lá se mostrou e a partir dessa data uma atrás de outra mais ou menos difíceis, com mais ou menos historia lá ia compondo as coisas.
Recordo agora alguns bons lances que jamais esquecerei, lances onde eu fui apenas um singelo e dedicado companheiro dos cães, esses sim foram os grandes protagonistas, corajosos e dedicados companheiros de caça, incansáveis trabalhadores que me encheram de alegria este coração Becadero, que a cada lance do cão batia mais forte.
Do Frick não tenho muito a dizer, apenas que sei ser capaz de me surpreender, tenho fé nele e o que vi deu para sentir a paixão que tem acorrentada dentro dele, um par de pássaros vistos entre deles um parado não foram suficientes para lhe dar a experiência necessária, mas mais anos virão.
A Shepa apesar dos problemas de saúde deu-me 5 pássaros onde um deles vou recordar por muitos anos, um belo trabalho e uma paragem deitada que me elevou para outra dimensão, simplesmente belo, tem tudo para ser uma boa cadela de Galinholas.
O Faruck, bem este só de pensar nele as minhas entranhas remexem de emoção, a minha barriga dá um nó, a garganta seca e o coração bate mais forte, penso por vezes que este cão me estava destinado, que veio à terra para preencher alguns vazios na minha vida, talvez alguém que lá em cima que se ocupa a olhar por mim mo destinou.
Em nada me espantou nesta época, foi ele e apenas ele. Dele não posso dizer que recordo um ou outro lance, recordo sim toda uma época quer desportiva (melhor Pointer caça prática do CPP) quer na caça, mas o dia nos pinheirinhos da Apostiça ficou perpétuado, o lance da primeira Galinhola de 2008 esse não me sai da cabeça, como um pássaro, um cão e uma arma podem mexer tanto com as emoções de um Homem, grandes dias no Alentejo, aqui perto de casa e em todos os sítios onde caçamos o Faruck mostrou a sua mestria a encontrar, trabalhar e parar Galinholas, carácter, força, entrega e dedicação fazem a diferença e dão-nos pássaros que aos olhos dos outros caçadores e narizes de outros cães parecem impossíveis. Sinto-me completo e preenchido com ele, a minha Paixão por ele é estranha, como pode um ser humano gostar tanto de um animal, e o contrário também é verdadeiro!? sinto que ele é parte de mim, se ele soubesse quão importante é na minha vida, para repor algum do meu equilíbrio emocional que em mim se esvai rapidamente… talvez saiba.
Comecei este diário dizendo que tinha apostado tudo nas Galinholas, pois bem se mais tivesse mais apostaria, dei-me realmente bem, mas fruto de muita entrega e dedicação, de muito esforço no campo, muitos arranhões de silvas e tojos, muito empenho mesmo nas horas mais complicadas e da qualidade dos cães, nunca esquecendo dos companheiros de jornadas principalmente do Jorge que me ajudou e ensinou muita coisa que me permitiu alcançar este número feliz de 24 Galinholas.
Por ultimo, porque os últimos são sempre os primeiros, a Nessa, pois sem ela nada disto era possível, ela à semelhança do Faruck tem a outra metade do meu coração, paciência para me aturar e para ficar sozinha fins-de-semana a fio, dedicação em tudo o que faz por mim não são ignoradas nem esquecidas, o apoio o carinho e a entrega demonstrados foram para mim tão importantes para fazer os 24 abates como a ajuda do Faruck, pois não há nada que chegue ao prazer de se caçar de mente livre sem carregarmos connosco o peso de deixar-mos em casa alguém contrariado, triste e só. Isto jamais esquecerei, é sinónimo de grande inteligência e de um inegável Amor.
A nostalgia já se apoderou de mim, o som do chocalho e o chamar do beeper estão gravados bem fundo na minha alma. Já sinto a falta das manhãs de Inverno e de sentir os dedos enregelados mesmo dentro dos bolsos, da expressão dos cães, da sensação inexplicável do primeiro pássaro do dia que nos dá alento, da beleza de um levante, da incerteza de um disparo e da perplexidade de um tiro errado, da admiração de um pássaro que se consegue furtar e da inigualável beleza de ver o cão a cobrar uma peça e retornar com ela na boca, do comentar do lance com os companheiros, todos estes e muitos outros pormenores é que me fazem ser um feliz apaixonado pela Bela Dama, Senhora dos Bosques, agora só desejo um bom ano de criação e que a próxima época me traga tantas emoções como esta, sempre na companhia dos meu cães e na da minha maior e mais bela Dama, a Nessa.

1 comentário:

Janeca disse...

Oi Jorge!
Esse senhor é o Sr. Machado! Excelente pessoa, costuma caçar por vezes comigo e com o João Lopa.
Perdeu o filho na mesma altura em que o meu pai faleceu, e um dia que andávamos à procura das bicudas chegamos à conclusão que andámos os dois a caçar para tentar atenuar um pouco a dor de perder cedo de mais entes (muito) queridos. É um excelente companheiro e os seus bracos têm uns nomes muito estranhos, pois o Sr. Machado viveu em Timor.