terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Diário de um Becadero. 2008/09 parte 3

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Um dia sem Baguinho.

30/11/2008
Poderá parecer estranho, mas a realidade é que caçar sem o Baguinho naquele pinhal não é o mesmo, não só porque a imensidão me dispersa ou porque frequentemente me perco, sendo meu guia o pequeno GPS que me acompanha, mas sobretudo porque aprendi a apreciar a sua companhia, os seus ensinamentos, creio ele não se aperceber da importância que tem a sua presença ao meu lado nas jornadas becaderas. Sem Baguinho a jornada foi estranha, andava sem rumo, apesar de tudo dei com pássaros, nenhum dos quais dos muitos vistos por nós na quinta-feira. O Faruck depressa me faz um rasto a grande velocidade, lia no cão uma galinhola andarilha pela frente, que larga se levanta e voa para a zona mais conhecida, deixo-a para o regresso, foi assim que o Baguinho me ensinou! Mais á frente o cão faz um novo rasto naquela velocidade alucinante que o caracteriza, fica parado e a Dama sai, larga não atiro. Sabia onde tinha mais ou menos pousado, o cão, esse tem nariz e sabe muito de pássaros, ouço rapidamente o beeper a tocar, corro o mais que posso, ofegante mal me acerco do cão ele guia por debaixo de um tojo, ela sai, boa, tão boa que a errei com um único tiro, obviamente fiquei desiludido, o cão tinha feito um trabalho lindíssimo e eu não conseguira completar o lance da melhor forma. Subo o cabeço tendo a certeza que ela estaria ali, o cão esse nem precisou de indicações e, já se ouvia novamente o beeper, sai-me tapada com um pinheiro, erro-a novamente, não estava em mim, sai depois sozinha para nunca mais a ver. Meu Deus, que dia complicado. Fui então ao eucaliptal, mas infelizmente nada, apenas mais água caída do céu para me refrescar o humor. Era tempo de ir ver da primeira, como Baguinho me ensinara, sai sim mas larga, atirada depois por um “taliban” dos coelhos, ouviram-se 3 tiros, mas penso, ou pelo menos rezo para que não a tenha abatido. Espero outra oportunidade, mas desta vez com o meu Amigo Baguinho, para me orientar nas voltas e me acalmar nos momentos complicados de pássaros falhados, que me deixam um pouco mal disposto apenas comigo mesmo.


Muitas é pouco, tantas penso que também…

(01/12/2008)

Pouco faltava para as quatro da manhã quando me levantei para fazer a habitual viagem anual de Abertura ás Galinholas. O destino era o Algarve, desta vez sozinho, pois o Jorge já lá estava, tinha ido de véspera. A viagem foi longa, numa noite escura de chuva e frio, levava como inerte companhia o Frick e a Uva que fizeram todo o caminho dormindo, também me acompanhavam as minhas ideias, pensamentos e memórias do ano transacto onde naquele local tinha visto muitas Galinholas, na minha cabeça pairavam duvidas e perguntas, “será que haverá pássaros? Será que vai chover demasiado que nem saímos dos carros? Será que a cadela é mesmo boa nestes terrenos onde cresceu e se fez becadera? Será, será, será…” tantas eram as minhas duvidas quantos os quilómetros a percorrer, sozinho no carro era normal que um apaixonado pela Dama tivesse tantas questões que punha a si mesmo. Devo dizer que as minhas expectativas eram pela primeira vez esta época altas, a zona é do mais belo que conheço, um nicho, um microclima inacreditável que as galinholas elegem todos os anos, aliado a isto o facto de só abrir em Dezembro, o que significa que há lá aves que já lá estão há mais de 3 semanas, já dominam o seu território, já conhecem os cantos á casa, o que por vezes dificulta o trabalho dos cães mas que sem duvida embeleza os lances, que são quase sempre precedidos de um trabalho de rasto de rara beleza, culminando com belas paragens num cenário surreal, ali tudo se conjuga, ali tudo é perfeito!
Cheguei meia hora mais cedo ao local de encontro habitual, um café numa estação de serviço, pouco depois as caras do costume começam a chegar, velhos becaderos especialistas nesta caça, que mesmo antes de eu ter nascido já eles andavam naquelas terras em busca da Bela Dama, um a um vão todos chegando, a jornada prometia para já ser concorrida, certamente com muita gente a caçar num espaço tão reduzido.
Pouco passava das 8 horas quando entramos na mancha, desta vez de mãos soldadas ao ferro e com muitas expectativas. Poucos minutos depois começam a soar os primeiros tiros, muitos, havia alturas que parecia uma jornada de tordos, o coração acelerava inevitavelmente, passo a passo lá ia penetrando na mancha, devagar pois a progressão é complicada para os caçadores, os cães nem por isso, o terreno é limpo junto ao chão, com muitas folhas secas caídas, tão do agrado da Dama. Os tiros soavam, o tempo passava e não via nenhum pássaro, não me espantava, apenas eu não conhecia o terreno, apenas eu olhava para onde pisava, apenas eu tinha de ter um olho na cadela e outro a tentar desvendar o melhor refugio das Galinholas, ao contrário de todos os outros que iam de crença em crença. A cadela estava no seu quintal, brincava ali, estava alegre e muito caçadora como nunca a tinha visto, como uma criança que brinca com os brinquedos em casa dos avós, com muito mais vontade! Numa clareira colada a um caminho a cadela dá sinal, um breve deslize e fica parada, sai a primeira Galinhola, completamente tapada, ainda atiro numa réstia de esperança que um tiro louco a deitasse por terra, mas por terra ficaram as minhas expectativas daquele abate, vejo-a esgueirar-se longe já, por entre emaranhados de todas as espécies botânicas possíveis.
Não tardou a parar outro pássaro com o mesmo resultado, saindo tapadíssima, esgueirou-se também a um tiro feito á mancha e não ao pássaro.
Ouço atrás de mim um disparo, olho para cima e o vislumbre do dia e de uma vida, uma galinhola passa por cima das copas dos pinheiros novos, mesmo sobre a minha cabeça, contemplo-a maravilhado, vejo-a a voar de bico para baixo, talvez ela também em tenha visto, maravilhosa imagem, não fui capaz de disparar, não era justo.
Com tanta gente no meio daquela mancha fechadíssima, caçadores em todo o lado, ouvia chocalhos em qualquer das direcções, sentia-me uma presa e não um caçador, resolvi por segurança sair dali e fazer a extrema da mancha, os pássaros mexidos no meio costumam ficar nas extremas. A Uva fica então parada fora da mancha nuns matinhos razinhos ladeados por um pinheiro manso e uma pequena aglomeração de estevas, sai o pássaro largo da cadela, tinha-a parado a uns 30 metros, mais uma vez atiro mas com canos 61 cilíndricos, a coisa é complicada, decido então descer e procurar a Dama que não podia estar longe, visto não haver nada muito elaborado por ali onde ela se pudesse esconder, pouco depois a Uva novamente parada, mais uma vez saía larga, antes de eu puder atirar, desta vez o voo foi maior e, para a zona onde tinha saído pela primeira vez. Começa tudo de novo, a cadela fica-me novamente parada junto a umas estevas, mas depressa desmancha e guia até dentro das estevas, lá dentro fazia o seu papel bem feito, estava realmente no seu meio. Ouço então a galinhola a bater as asas dentro das estevas, a cadela não desarmava e fazia o rasto que a ave deixara dentro das estevas, vejo-a então sair larguíssima, desta vez pensei “não te vejo mais!” o cenário para onde ela tinha ido era de manchas infindáveis de estevas. A cadela sai das estevas e de cabeça no ar a apontar para o céu faz-me algo que nunca tinha visto um cão fazer, segue a emanação que a Galinhola tinha deixado no ar, ao voar a não mais de 3 metros de altura, a distancia foi enorme, talvez mais de 300 metros, até um velho pinheiro manso, pouco depois mete o nariz em baixo e fica novamente em mostra, a galinhola sai de umas estevas que faziam companhia e aqueciam os pés ao velho pinheiro, que desta vez deu guarida rápida ao pássaro, ainda atirei mas o pinheiro aceitou para si o chumbo que não lhe era destinado, vejo o pássaro mandar-se para o chão para umas estevas do outro lado do pinheiro, a cadela novamente em mostra, a Galinhola como que rendida, sabendo que as estevas mais novas não lhe dariam o coberto necessário para uma fuga vitoriosa, levanta e fica como que parada no ar, de bico a apontar ao chão e asas para o céu, um tiro certeiro e um cobro magnifico da Uva. Estava radiante, aquela Galinhola deu luta, deu-me algo que nenhum outro pássaro me tinha dado antes, foi um longo duelo, intenso de igual para igual, onde a cadela desequilibrou, não estava em mim, estava maravilhado com a cadela, agora percebia o porquê do Jorge ter querido tanto comprar esta cadela, que por portas e travessas era agora a minha cadelinha.
Vou então trocar de cão, o Frick tinha agora a oportunidade de caçar, não demorou muito a ele ficar também parado com uma Galinhola, que saiu numa zona fechada a voar junto ao chão, apenas a vi porque me baixei rápido e vi-a deslizar a uns escassos 30 cm do chão, as coisas não estavam mesmo de feição para mim.
Mudámos de mancha e a Uva pára-me mais uma Galinhola, numa zona demasiado fechada, vejo-a já no ar, fora da mancha a voar na extrema, não mais a vi, o Paulinho ainda viu nessa zona 3 mas complicadas. Os meus companheiros tinham feito o cupo, cada um tinha as 3 de lei, além de belos lances com os seus cães.
A manhã estava no fim era hora de regressar, com apenas um pássaro, mas com muitos lances na cabeça, daqueles que me dão razão para adorar os meus cães, muitos acham-me maluco de fazer 650km para abater um pássaro tão pequeno, mas há algo mais que estas pessoas não entendem, a verdadeira razão de se ser becadero.

Pontapé na moita.

(04/12/2008)

Poderíamos achar repetitivo, 6.45h no local do costume, mas falando por mim, eu neste momento e nesta época do ano, enquanto a maioria do comum dos mortais anda entretido nas compras próprias da época, embuido num espírito Natalício, eu e alguns Amigos andamos mais num espírito Becadero, ansiamos que os dias passem para que cheguem os dias em que temos jornadas marcadas ás Galinholas, portanto pouco ou nada tem de repetitivo uma jornada Becadera, não há dois dias iguais, não há dois lances iguais.
Poderia achar que o começo da jornada seria mais do mesmo, mais uma vez a volta feita já vezes sem conta, mas não. Baguinho delineara uma estratégia diferente desta vez, talvez uma noite dedicada ao pássaro e num ou outro lance ali perdido, Baguinho pensara detalhadamente como se uma jogada de xadrez se tratasse.
Assim foi, a estratégia era então do mais simples e lógico possível, ou seja fazermos a extrema da mancha de frente um para o outro. Mas talvez a Dama adivinhasse, ou tivesse naquela manhã um sexto sentido que a levou a perceber o nosso plano, pois não deu resultado.
Apenas mais à frente vejo um pássaro sair, largo e sem me deixar chegar, vi para onde ela foi, faço sinal ao Baguinho que ia uma à nossa frente, chegado ao cimo vejo o Faruck parado, mas o rabo a dar lentamente dizia-me que tinha já saído, Baguinho vê sair já larga, deixamo-la então para o regresso como costume.
Noutro local onde o cão me tinha parado um pássaro no domingo, sinto que ali haveria algo, num caminho vejo o cão remontar e ficar parado, o beeper toca, acerco-me do cão e já larga sai o pássaro que roda para trás, erro um primeiro tiro distante e acerto um segundo e ultimo muito largo, o pássaro cai, o cão rapidamente cobra, não estava ainda a crer que tinha mandado a baixo aquele pássaro tão difícil e tão longe, mas por vezes caem nestes tiros distantes.
Andamos mais um pouco e começa a chover, Baguinho tinha-se esquecido do encerado no carro, decidimos ir lá busca-lo e aproveitava-mos para ver da que andava a monte, não estava uma mas sim duas, uma errada por cada um de nós, pássaros estes que não mais os vimos.
Vamos por comum acordo procurar um pássaro que o Jorge encontrara e falhara assim como o Baguinho que num outro dia também a tinha falhado.
Novamente uma nova estratégia se estava a delinear na cabeça do Baguinho. Chegados ao local, ele sugere que façamos a extrema do terreno e que procuremos a Galinhola de baixo para cima, pelo lado oposto ao que a tínhamos habituado, concordei pois era uma estratégia que me agradava. Fizemos então a extrema, rodamos até ficarmos pela frente com a zona onde achávamos que estaria o pássaro, não demorou muito até o Faruck ficar parado, chego-me ao cão ele começa a dar ao rabo, percebi que tinha já saído, desmancha a mostra e segue no rasto, não mais de 20 metros até ficar novamente parado, desta vez virado para mim, agora tinha a certeza que ela estava lá, o cão não mexia, numa expressão de muita beleza tinha a ave controlada que estava num tojo pequeno na base de um pinheiro novo, o beeper toca e o Baguinho observava tudo a não mais de 4 metros de mim, ela não sai-a pois o terreno limpo ali à volta era tudo o que uma galinhola não gosta, dou então um pontapé no tojo e o pássaro sai, abatido ao primeiro tiro, “lindo, que lance” exclamei! Baguinho sorridente dá-me rapidamente os parabéns, o lance tinha realmente sido magistral.
Pomo-nos então ao caminho, numa zona por nós conhecida e que já tínhamos comentado que este ano ainda não tinha-mos lá visto pássaros, Baguinho faz-me sinal que tinha visto uma que se levantara larga, diz-me também que era das toureiras, pouco depois erra-a saída aos cães, vejo para onde ela foi, Faruck e Rafael depressa fazem o rasto, ela levanta-se tão devagar, mas tapada, não atiro, os cães não tardam a meterem-na no ar novamente, tapada não atiro, mas Baguinho abate-a ao seu primeiro disparo da Calibre 20 e, diz ao Duque que hesitava em entregar o troféu “Duque dá cá a toureira!” finalmente ele tinha o seu pássaro, inevitavelmente outros olhos apareceram na cara do meu companheiro.
Uma jornada de belos lances, 3 abates e 5 levantes foram o bastante para nos divertirmos.


O toque interminável.

(07/12/2008)

Mais um domingo de Galinholas, a hora foi desta vez alterada, para mais tarde, pois dia a dia o sol tarda em despertar e faz-nos esperar sempre mais uns minutos para irmos ver das nossas Damas, o inverno tem destas coisas.
A noite tinha sido chuvosa, a madrugada estava fria e sem chuva, mas o escuro aqui e ali no céu dizia-nos que a manhã seria sem dúvida mulhada, portanto teríamos de levar na bagagem os impermeáveis.
Entramos na mancha pelo local do costume, numa das boas zonas e nada de pássaros.
Já levava-mos talvez uma hora de caça sem vermos o que fosse de Galinholas, até que o Beeper do Faruck interrompe o silencio do bosque e os meus pensamentos, saio desalmado a correr, mas o cão fez uma daqueles lances tão característicos nele, algo que apesar de o conhecer bem não sei o porquê dele fazer isto, sai disparado em linha recta, de cabeça no ar, quem o visse pela primeira vez diria que ia a fugir de algo, mas não, vai sim longe, directo a uma Galinhola, como se sempre soubesse que ela ali estava, foi assim mais uma vez!
O beeper a tocar intermitentemente, eu a correr, mas ele desta vez estava bem longe, parei uma, duas, três vezes para perceber de onde vinha aquele som mágico, quando me apercebi ao certo, percebo que o beeper se tinha calado, olha para a frente e vinha em pleno voou a Dama, direitinha a mim, mas rodou ao ver-me e pousou num caminho a uns 40 metros, eu a vê-la ali desprotegida no caminho, podia tê-la abatido no chão, mas não fui capaz, aliás, dizendo a verdade nem me passou pela cabeça abatê-la no chão! Ela levantou quando me aproximei, direita ao Baguinho que a erra larga.
Não demos mais com ela, fica o doce som do Beeper que por vários segundos alegrou uma manhã até ali muito igual, Baguinho dizia-me o que eu percebera, que era a Galinhola que vimos um Becadero errar na quinta feira, desta vez foi o Faruck a para-la por demasiado tempo, esperaram por mim cão e pássaro um tempo interminável mas que infelizmente não consegui chegar a tempo de completar um lance fantástico.
Fomos então palmeando terreno em busca de um outro pássaro, um outro pássaro conhecido do Baguinho dava-lhe mais uma vez a volta, saindo larga no momento e no local que ele esperava, também não a vimos mais.
Depois o insólito acontece, o Faruck faz um rasto e fica parado num molho de lenha velha que pousava em cima de um tojo, numa zona limpa em volta, eu mal me apercebo chego-me ao cão mas o pássaro não espera e sai para a frente atirada e errada pelos dois, vimos onde tinha pousado, mas o cão apesar dos tiros não desmancha a mostra, faz um novo rasto e novamente parado no mesmo local, achei estranho e comentei com o Baguinho “deve estar no quente” mas não, sai um outro pássaro do mesmo local, não queria-mos acreditar. Sabia-mos onde estavam duas Galinholas, decidimos ir um a cada uma. Eu á que foi para a frente, Baguinho para a que rodou para trás. O Faruck depressa entra num rasto e pára a Galinhola que não me sai má mas que erro, ouço o tiro do Baguinho, ele matara a dele. Fui novamente atrás da minha, ouço então o beeper do Faruck, corro e lá está ele parado, num aglomerado de pinheiros finos, altos e demasiado juntos, ela sai tapadíssima, atirei mas com a noção que a tinha errado em ambos os tiros, sai tipicamente da forma que bem sabem, aos zig zages por entre os pinheiros. Em tom alto disse uma daquelas asneiradas, não ao pássaro, não ao cão, mas a mim próprio, não queria acreditar que tinha errado um pássaro parado 3 vezes pelo cão.
Pouco depois o Duque levanta uma Galinhola que o Baguinho erra, mas longe dali e na borda de um caminho o Rafael para muito bem, o Faruck paralelo com ele a escassos 4 metros estava também parado no rasto dela, mas a dar ao rabo lentamente, percebi que era o Rafael que a tinha, mas de repente o Rafa começa a dar ao rabo lentamente sem desfazer a paragem, olho para o Faruck e vejo que este agora estava mesmo com ela, o pássaro quis ludibriar o Rafa, mas deu de caras com o Faruck, mas novamente o inverso, ela volta ao local inicial, vejo então o Faruck a começar a dar ao rabo lentamente e o Rafa sem se mexer a fixar a cauda, de repente ela sai e abato-a ao primeiro tiro.
Que espectáculo, a Galinhola tinha tentado dar a volta aos cães, mas estes são demasiado experientes para entrar e picar o pássaro, trabalharam-na tão bem com tanta classe, que eu estava radiante.
A jornada findava pouco depois com bons lances mas apenas 2 abates.


Uma tentativa falhada.

(08/12/2008)


Segunda-feira feriado, fomos dar uma espreitadela numa ZCM que eu costumo caçar todos os anos, numa tentativa de poder-mos ver um ou outro pássaro em locais diferentes do habitual, mas as coisas não correram muito bem!
Depois das inscrições necessárias, lá fomos ao campo, demos de caras na melhor mancha com dois caçadores se é que isso se lhes pode chamar, ás pressas entraram na mancha, como se andassem a caçar para comer, eu chamo o Baguinho e decido mudar de mancha, para outra que bem conheço, pelo caminho um total descampado vejo que vínhamos a “ser seguidos” pelos dois autênticos talibãs, que aceleraram o passo de forma a entrarem na mancha primeiro que nós, com 5 cães para 2 caçadores o que só por si é ilegal, entraram na mancha passando á nossa frente, as coisas não estavam a correr bem, pelo que olho para o Baguinho e sugiro irmos embora, pois aquilo não faz parte da nossa filosofia de ver a caça, não sou assim, não caço para comer, pouco me importa para quem é a caça no final, apenas guardo para mim a beleza dos momentos que não acaba no términos de uma refeição, aliás, tenho ainda Galinholas do ano passado, dei bastantes a amigos que não as caçam mas que as gostam de comer. Andar numa correria para ver quem chega primeiro á mancha e, depois não haver respeito pelos outros não faz parte da minha educação, pelo que me meti no carro e rumei mais Baguinho para o “nosso” couto.
Já em terras que não há deste tipo de gentinha as coisas começaram a correr melhor, pois sai-me uma velha conhecida num local também ele muito conhecido, que a abato num único tiro, mas a fraca beleza do lance e os percalços do inicio da manhã tinham transformado esta manhã de Galinholas em algo sem muita historia e que não desejo recordar!


A mais bela certeza de um becadero.

(13/12/2008)

Sem Faruck, emprestado ao único Amigo que tem o privilégio de desfrutar dele, desta vez para fazer umas filmagens de caça ás Galinholas para o Canal caça&pesca Espanhol, a escolha recaiu no Frick.
A jornada foi no local que mais gosto de caçar ás Galinholas, uma pequena crista de finos pinhos com uns vizinhos eucaliptos que comungam o mesmo solo com tojo, sargaço e poucas estevas novas.
Conheço bem demais este terreno, sei as crenças, sei onde se deleitam as Damas, sei onde as procurar a cada levante, aqui sou eu que dito as regras, não elas.
Começo com a cadela numa zona minúscula de maracha, onde todos os anos alberga um pássaro, mas que desta vez não tinha nada.
Mudo-me então para a zona que mais gosto, onde verdadeiramente desfruto de uma jornada ás Galinholas. Saio com a Uva, em direcção a terrenos de crença, fazendo todos os cantinhos conhecidos capazes de ter uma Galinhola, vejo então na “crença maior” uma galinhola a voar calmamente, fugida do som do chocalho da Uva que nem se apercebeu dela, pois a ave tinha saído muito antes de nós lá chegarmos, permaneci calmo, estava sozinho descontraído a desfrutar da jornada e, acima de tudo tinha a certeza para onde ela fora.
Inteligentemente fiz com a cadela o terreno de onde ela tinha saído, pois não era a primeira vez que me saíam ali duas, mas nada. Decido ir trocar de cão, sei das qualidades e defeitos dos meus cães, tenho a plena noção o que esperar deles, sabia que a Galinhola estava certamente na estrema num bico de tojo, terrenos onde a cadela não está á vontade, não sabe e não gosta de rasgar o vestido no tojo, com o Frick no carro, mais dedicado e trabalhador o tojo não seria problema e sem duvida era a melhor opção.
Troco então de cães, retiro o chocalho ao Frick, esta era demasiado sensível de ouvido, ia agora como diz o Jorge “á paisana” sem beeper e sem chocalho, mal entro no bico da mancha o Frick levanta a cabeça e começa a dar violentamente ao rabo, tinha-a no nariz, seguiu-se um jogo misto de escondidas e apanhada entre uns espinhosos tojos, então ela sai já larga do cão, mas é abatida num disparo certeiro, estava feita a primeira da manhã, abatida facilmente, mas inteligentemente trabalhada.
Vou então ver de mais uma crença, o Frick no meio do eucaliptal fica parado, acerco-me e ele desfaz a paragem sem seguir no rasto, estranhei, palpitava-me que o pássaro tivesse saído momentos antes, marquei a zona e deixei-a para depois de ver uma pequena mancha que estava com demasiado pasto.
No regresso decido investigar melhor a zona da anterior paragem do cão.
O Frick alheio a paisagens sai disparado e em linha recta, até trabalhar rapidamente um rasto e ficar parado a uns 40 ou 50 metros de mim, com o cão parado sai a Galinhola, não me mexo e ela vem direitinha a mim, mais baixa que as copas dos eucaliptos, tão linda, tão facil que já a via no chão, erro-a com 2 tiros e, vi a ir-se embora, não queria acreditar, escandaloso pensei!!!
Era tempo de engolir a saliva que se acumulara na minha boca e tentar encontrar o pássaro. O Frick cada vez mais entusiasmado procurava incansável um pássaro que o dono tinha a obrigação de ter abatido. É jovem ainda não entende que o dono falha muitas vezes aqueles tiros que se julga de extrema facilidade, tem tempo de perceber isso, como eu tenho de melhorar.
Com cabeça tentei fazer a busca da melhor maneira possível, até que o Frick fica novamente parado, mas novamente a desfazer e a não seguir num rasto, talvez tenha saído novamente, pensei para comigo.
Até que num altinho no meio de um todo igual Eucaliptal o cão dá novamente com ela, desta vez já não deu paragem, mas foi morta ao primeiro tiro, apesar de tudo este tiro errado ajudou a ter mais um lance para fazer um cão que cada vez é mais uma certeza, cada vez mais é um cão Becadero!


Mais Frick…

(14/12/2008)

Uma manhã fria e com pouca chuva, começámos como sempre e com a convicção do costume a pisar os mesmos terrenos, Baguinho também como habitual á Esquerda e eu á direita, novidade apenas eu com o Frick e não com o Faruck, que continuava no seu papel de artista a parar pássaros para o filme noutras bandas.
Passado pouco tempo estava já num caminho, esperando que o Baguinho sai-se também ele da mancha, de frente para a mancha vi o Frick um pouco longe de mim entrar novamente para a mancha, ouvia o chocalho cintilar intermitentemente, ouvia também o chocalho do Rafa e do Duque não muito longe do Frick. Pensei então para comigo, “ainda vai sair um pássaro ao Frick e vai passar aqui a jeito…” daqueles pensamentos que se tem, mas que não julgamos passar disso, mas o certo é que o pássaro sai mesmo e passa mesmo á minha frente a cruzar a mancha a escassos 20 cm do topo do tojo, um pouco larga erro-a com 2 tiros, apesar de tudo vejo-a pousar na extrema da mancha, fomos lá mas nada, certamente tinha-se já furtado, não demos com ela.
Decidimos então ir ver uma zona que tinha-mos visto um pássaro e que o Baguinho tinha errado, mas que julgava que eu a tinha abatido depois parada pelo Rafa. Sinceramente nunca tive a certeza que seria o mesmo pássaro, sempre pensei que eram pássaros distintos, ao contrário de Baguinho. Desta vez e não longe do local onde ela saiu ao Baguinho, sai-lhe novamente, com 3 tiros estranhos ela ia-se embora alta, já que a coronha da calibre 20 do meu Amigo tinha ficado presa no oleado não permitindo um tiro limpo. Vejo-a muito alta, mais alta que os pinheiros bravos já velhos, ia direitinha a outra Herdade, até que a uns escassos 30 metros da rede que separa as terras e a mais de 200 metros de onde nos encontrávamos, vejo-a cair seca, grito para o Baguinho, “Baguinho caiu, caiu…” corremos lá, ele não queria acreditar, pois não tinha visto o pássaro cair, ali estava ela no meio de um caminho, o Homem ficou rejubilante de alegria, deixara de ser um pássaro errado e passara a ser um pássaro cobrado.
Ia-mos então ver de um pássaro conhecido, longe dali, pelo caminho deu-me mais um daqueles feelings e, digo que deveríamos cruzar um terreno em vez de irmos pela estrada a encurtar caminho, o companheiro concordou! De seguida vejo o Frick a fazer um rasto muito enérgico e a ficar parado, corro mas antes de eu lá chegar o pássaro sai, da um típico salto de peixe, mas os cães correm a trás e metem-na no ar, calma voa até pousar num alto ali perto, sem correrias vamos ao encontro dela. Baguinho palpitava-lhe a estrada, a mim palpitava-me o interior da mancha, aos cães palpitavam-lhes, bem esses não lhes palpitava nada, apenas procuravam uma emanação que lhe desse a certeza a eles e nos confirma-se a nós os palpites. Depressa o Frick pega num rasto, eu sabia que ele a tinha pela frente, colado ao cão ia vendo aquele espectáculo indescritível, o cão de cabeça no ar, a remontar e a parar, a remontar e a parar, até que percebi que aquilo tinha de acabar ali, pois a seguir havia uma limpa e, mesmo antes da limpa o cão fica parado, percebi que o jogo do Gato e do Rato, ou neste caso do Cão e da Galinhola chegara ao fim, ela sai e abato-a ao primeiro tiro. Que espectáculo, que coisa maravilhosa, o Frick tinha-me dado um lance daqueles que ficam a matutar dias a fio. O pássaro caiu em cima de um tojo, mas o cão com um salto recuperou-o. Baguinho dava-me os parabéns pelo lance e pelo abate.
Não muito longe e com forte convicção, ia-mos ver da baptizada por (Carlos Lopes) pois era um pássaro que tínhamos visto no dia em que ele foi connosco.
Ela sai ao baguinho a escassos 2 metros dele, ele como ouve mal nem a sentiu nem a viu, vejo-a abrir as asas e pousar num buraco enorme cheio de pinhos e mato, ainda a levanto mas demasiado tapada não atiro.
Mais uma jornada magnífica onde o Frick me provou que se houver pássaro, ele está á altura.


Um enguiço quebrado.

(23/12/2008)

Parado no 13 há já demasiado tempo, talvez por culpa minha, talvez por culpa do pássaro, talvez por ser becadero, talvez porque a caça uns dias são dela outros do caçador. O que é certo é que parei no 13º abate e penei para sair dali, mas desta vez as coisas mudaram.
Um dia atípico, a normal quadra de caçadores desmantelou-se por diversos factores, apenas 2 resistentes se mantiveram fiéis à Dama, eu e o Mário Vicente.
Como habitual começamos por volta das 8.30h num local que achávamos que poderia ter pássaros, pelo menos era essa a nossa expectativa, pelo menos foi assim na época transacta. Desta vez apenas uma Galinhola nos brindou com a sua presença, saiu ao Mário. Uma das cadelas pega num rasto e fica parada e sai no rasto, a outra faz o rasto na direcção oposta, o Mário apostou em seguir a cadela mais velha e experiente, apostou mal! Pois quem a tinha pela frente era a cadela mais nova, a mais velha estava a fazer o rasto no sentido errado, Mário ao engano sente a Galinhola sair à cadela mais nova, ainda atira mas não consegue abate-la. Não demos mais com ela.
Depois, bem depois mais um daqueles feelings meus. Ao fazer a extrema junto à rede vejo uma outra mancha de montado com sargaço, com bom tamanho e aspecto e virada a Norte, uma mancha que nunca fazemos mas que me fazia antever algo de bom.
O Mário aceita a minha opinião e fazemos então a mancha. Desta vez saio com o Frick com Beeper e sem chocalho, ao meu estilo. Deixo o Mário escolher a posição que quer fazer, escolhe a direita, fazendo eu a esquerda junta da vedação. Optei por fazer os cabeços em detrimento das covadas com sargaço demasiado fechado, o Mário queixava-se disso mesmo, eu aconselhei-o a subir e fazer antes as cristas e deixar as covas.
Pouco depois o Frick parado à minha beira, numa pequena clareira de sargaço numa depressão no alto de uma crista, o pássaro sai e é abatido. Mais uma vez o Frick a parar-me muito bem parada uma Galinhola, a felicidade que me abandonara por alguns dias, volta a mim, de novo um sorriso becadero instala-se no meu ser. Pode parecer estranho mas quem me conhece sabe da minha paixão e da minha forma de sentir esta caça, a forma intrínseca e dependente que tenho de ver as Galinholas, sabem que uns dias de caça sem pássaros são o suficiente para mexer comigo, para mudar o meu humor, aliado a umas jornadas azaradas de lances perdidos e de pássaros falhados e, a ter o meu Faruck em casa prestes a ser operado, são razões mais que suficientes para que me sinta triste.
Mais à frente novamente o Frick parado, a Galinhola sai direitinha a mim, não quis atirar de frente pois tinha a noção que era demasiado perto, deixei-a passar e errei 2 tiros daqueles impossíveis de falhar, daqueles a rodar a mão que tanta dor de cabeça me dão!!! Não queria acreditar, que estupidez, que lance maravilhoso do Frick desaproveitado…
Não dei mais com ela, era hora de mudar de mancha e ir ao cantinho do Faruck, onde costuma ter sempre pássaros. Mais uma vez o meu palpite a zona fez jus ao nome e mostrou-nos 2 pássaros. Uma abatida pelo Mário e outra que ele não conseguiu sequer atirar.
Uma jornada a dois, bem disposta e bem caçada, com 5 levantes e 2 abates, um bom almoço com a agradável companhia do Mário.
A cada jornada que passa sinto e vejo que cada vez mais o Frick está ciente do que anda a fazer, cada dia que passa tenho mais cão tenho mais becadero, os lances dele cada vez são mais e cada vez melhor trabalhados e finalizados, uma tripla de bons Pointers becaderos que me dão sempre pássaros se eles lá estiverem!

De realçar o facto de um amigo ter abatido uma Galinhola anilhada em França, algo incomum mas que deve ser tratado com a devida atenção, pois será remetida a informação ao CCB em França.












1 comentário:

LUIS NOVAIS disse...

Boa tarde Jorge.
Espero que esteja tudo bem contigo e teus companheiros.
Infelizmente a caça, ou melhor, no mundo da caça, e para mim faço a seguinte distinção : Caçadores e caçarretas! Isto porque, se não fosse eu gostar demasiado de caçar, se calhar já tinha desistido de ser Caçador. Não só porque o sector da caça em Portugal devido às actuais Leis da Caça e das Armas. Quem me conhece, sabe bem o que estou a falar, isto porque a caça é e sempre será governada por um dúzia de interesses, estes completamente diferentes dos meus, ou seja, vejo a caça como um todo, como um complemente há minha vida e há minha maneira de ser de viver e contemplar a sua identidade tão remota que é.
Por isso, deixa lá esses "TALIBAS" porque estes não não certamete Caçadores de verdade, são sim e certamente caçarretas que não mereciam de forma alguma terem na mão uma arma, quanto mais serem detentores de carta de caçador.

Um forte abraço e continuação de boas caçadas,
Luis Novais