sábado, 22 de dezembro de 2012

Don o Fenómeno!


A manhã ao contrário do que tenho vivido nos últimos tempos amanhecia quente e seca, água, muita no chão e nas estevas completamente encharcadas. Não pude deixar de reparar que o clima anda estranho, as estevas apressadas já vão uma ou outra abrindo em flor, calma pensei eu, deixem-me disfrutar e depois lá têm todo o tempo do mundo para colorirem os campos.
Saí com o Don, como sempre de chocalho e beeper, sem rumo certo pois não sabia de nenhuma galinhola para visitar, pois bem, o melhor nestes casos é mesmo caçar em terrenos não pisados, foi o que fiz!
O Don, cabeço a cima, cabeço a baixo num ritmo forte, os terrenos molhados e muito empapados dificultavam-me o andamento mas parecia que ao Don nada o impedia de galopar.
Numa zona de pouco mato e como é típico no Don, deita-se de repente interrompendo o seu galope de forma abrupta, acerco-me do cão, ele guia e fica novamente em mostra, sai a dar ao rabo indicando que ali estivera algo há pouco tempo. Segue então para a esquerda, eu, olho à direita e no limite da mancha vejo 2 chaparros com uns matos pelo meio, chamo o cão que, rapidamente faz calar o chocalho e cantar o beeper, os quartos traseiros em terra, cabeça ao alto, a boca abria e fechava sorvendo o perfume da Dama tão compassadamente que mais parecia um relógio suíço, lindíssimo, uma imagem que me irá vaguear por muitos anos na minha mente, meti-me de frente ao cão, os chaparros ficavam um à direita outro à esquerda, o beeper não se calava, até que o pássaro sai, não estava a mais de metro e meio do cão, tentava sair para cima mas embrulhava-se no mato, eu esperava que ela se desenvencilhasse dos matos que a agarravam tentando serem eles senhores do lance, lá sai e roda para cima do cão já a tapar-se com o sobreiro da direita atiro e ela tomba, o cobro e a adrenalina lá em cima, tremia, confesso que tremia no final do lance, largos segundos não sei precisar quantos, de pura adrenalina.
Pouco mais à frente numa zona de estevas ouço o beeper tocar, rapidamente corro a servir o cão, sem grande espera a galinhola sai sem me deixar colocar bem, erro-a no primeiro deixando por instantes de a ver, num dos seus zigue zagues destapa-se por momentos, mostrando-se e aí consigo atirar, sem saber se a tinha abatido mando o cão cobrar, pouco depois aí vem o Don com ela ainda viva, um sorriso rasgado uma festa ao cão e mais um pássaro na bolsa.
Continuo em busca de novos terrenos, numa mancha pequena vejo uma zona com muitas condições, de fora da mancha o Don pára virado para dentro, acerco-me do cão, posiciono-me e nada, dou um passo ao lado e piso inadvertidamente uma garrafa plástica velha e seca, o barulho é enorme, o cão desvia o olhar sem mexer a cabeça, mas não sai nada, até que um pá pá pá, aí estava mais uma a encastelar, dei um passo atrás para a abater quando ela subisse acima das árvores e se mostrasse, engano meu, como são inteligentes estes pássaros, ela subiu arvores acima, sempre encoberta e em vez de se mostrar acima da copa das arvores, rodou e desceu novamente afastando-se sem sequer ser atirada, foi mais forte, muito mais, o Don ainda a parou mais duas vezes mas aí já ia de levante e nunca consegui meter-lhe a vista em cima, lá fica mais uma para a próxima.
Esta foi mais uma emocionante jornada, caçar com o Don é algo de sobrenatural, as sensações vividas são quase sexuais de tão intensas que são, a beleza e subtileza nos lances são inacreditáveis, apenas os pequenos filmes que tentarei fazer darão cor e credibilidade às minhas palavras que, de outra forma e para quem não me conhece podem não passar de histórias fruto da mente de um louco alucinado pela caça e apaixonado pelos seus cães.
A caça às Galinholas é algo muito íntimo, cada lance vivido é compartilhado tantas vezes apenas com o nosso cão, cada lance merece e carece de uma posterior introspecção e reavaliação, cada lance é revivido vezes sem conta, cada pássaro errado volta para nos assombrar a mente e assolar com pensamentos maquiavélicos. Quantas vezes pensaremos nele, quantas vezes reviveremos o lance, quantas estratégias maquinaremos de forma a tentar numa futura jornada dar-lhe a volta e levar a melhor naquele embate que ainda estou para perceber se é ou não equilibrado.

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