sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sonhos Perfeitos.

No ar, o cheiro nitidamente está diferente, há agora um cheiro mais fresco que nos faz despertar memórias, no chão, as primeiras folhas caídas da minha figueira anunciam o final do verão, o canto dos pássaros também ele soa de outra forma, o som das andorinhas é aos poucos destronando pelo canto dos taralhões que vão ocupando os seus troncos secos e pedras de eleição, este é o ritmo normal da natureza, é assim que ela se move, é desta forma que ela se rege desde sempre.
Eu vou contando os dias, cada vez mais próximo está o primeiro encontro com uma das minhas Damas, de noite já sonho com elas, em quatro dias, três sonhei com elas, acordei com um sorriso rasgado e um sabor amargo a pouco, por perceber que era não mais que um sonho. Aos poucos vou olhando para os chocalhos, pelo canto do olho vou mirando os beepers, imaginando que vão tocar vezes sem conta, autenticas sintonias para os meus ouvidos. Os cães, esses tal como eu vão percebendo que as coisas estão a mudar, que a época está próxima, uma ou outra saída às codornizes vai-lhes aguçando o jeito, matando saudades e mantendo a forma.
Saio cedo para o trabalho, ao romper do dia, inalando sempre o odor frio e revigorante da alvorada, os cães dia após dia ao verem-me sair de casa, olham para ver as minhas vestes, mas não, ainda não são as roupas do costume, também a disposição obviamente não é a mesma. Embora esteja mais perto, falta ainda um pouco, mas são estes apontamentos da vida, as doces lembranças, os sonhos, o verificar o equipamento, o olhar cúmplice dos cães que faz desta a caça de eleição, é esta a mística típica que transporta há séculos esta ave de bico comprido.
Chegará o primeiro dia em que o Faruck, o mais atento, olhará para mim de madrugada e perceberá que no lugar de uma distinta camisa e de uma vistosa gravata está uma camisola laranja, que no lugar do sapato de berloque estão uma botas, gastas mas cómodas, feitas ao meu pé, moldadas a gosto de tanto palmear terreno atrás de tão belo ser. Nesse momento perceberá que naquele dia não sairei sozinho, que a porta traseira do carro se abrirá e que a viagem e o destino são outros, mas também eu estou desertinho que esse dia chegue, as Perdizes por mais engraçado perderam um pouco o papel que tinham, as codornizes são uma pequena amostra, as Lebres não passam de carne e o resto bem o resto nem merece a pena comentar, caça, caça é algo mais, é o contemplar do lance, é o remontar de um lance, uma paragem longa, um silêncio interrompido por um beeper, um tiro difícil, um cheiro a pólvora que fica no ar e que parece perdurar para sempre, e um cão feliz a deixar em nossas mãos trémulas o corpo ainda quente de uma Galinhola, que com respeito inspeccionamos para ver se é velha ou nova, grande ou pequena, não sei se felizmente se infelizmente apenas esta ave me desperta estes sentimentos tão verdadeiros. Agora resta uma espera, complicada mas necessária, até que o primeiro pássaro se apresente a nós e ao cão.

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