quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Com cheirinho a Natal.

A manhã despertou tardiamente, fruto de um céu escuro e chuvoso mas com cheirinho a Natal.
Por norma todos os anos dá-me um gostinho especial caçar neste dia, talvez o espírito se apodere de mim, talvez o facto de ter a família em casa a passar as festas e, levantar-me cedo antes de todos os outros, pegar no cão e ir para a caça tenha um sabor algo diferente.
Foi o que fiz mais uma vez, confesso que a noite foi mal dormida, sonhando e pensando no pássaro, por estranho que pareça pois a época já vai larga e o pássaro ainda me consegue tirar o sono. Tinha a forte convicção que este temporal tinha mexido com as Galinholas, que elas encostariam em zonas de pinhais velhos e mais abrigados para passarem por este mau tempo.
A volta seria a mesma, sozinho com o cão, equipado para a chuva pois essa sem dúvida estaria presente pela manhã e lá começamos nós.
Entro na mancha pelos passos do costume, o cão esse, já sabe a volta que tem a fazer, faz os cantinhos dele um a um, pois também ele tem as suas preferências, também ele sabe das crenças e dos pontos mais quentes, não mais de 10 minutos e já tocava o beeper, numa zona limpa, o que confirmava as minhas expectativas, mas não saía nada, tinha levantado pouco antes do cão ficar parado, mas pela forte expressão do cão dava para ver que aquele pássaro era real, era a minha vez de pensar, meti o cão nas zonas que sentia que ela poderia agora estar, ao longe vejo um pássaro a voar, mas dada a distancia não consegui descortinar o que seria, a minha ideia seria entre um melro e uma Galinhola mas, mais a atirar para o melro, continuei na procura daquele pássaro em particular, pois sabia que estava por ali algures, mas que não seria fácil pois era uma pássaro que entrara nessa mesma noite, não dominava o terreno e andava de levante à nossa frente, num típico comportamento defensivo.
Chegando ao fim da mancha e nada de pássaro, dou a volta e faço o terreno no sentido inverso e mais junto da extrema e para a zona que se tinha dirigido o suposto melro, é aí que o Faruck a pára por poucos instantes até que ela sai larga antes de me aproximar do cão, ainda atiro mas não lhe toco, mas pelo menos confirmava a minha ideia e a do cão que certamente não precisava de a ver para saber que ela existia. Vou então à procura dela, com a certeza de a encontrar novamente, pois o cão é muito forte na rebusca das Galinholas, não mais de 3 ou 4 minutos e aí estava ele parado com ela, acerco-me do cão mas já estava nas nossas costas, sai mas ainda assim larga cai ao primeiro tiro, pouco depois vinha o Faruck com ela na boca a dar ao rabo, para ele era também uma alegria, olhei para o relógio, tinham passado 45 minutos, três quartos de hora no encalço de um pássaro que nem eu nem o cão tínhamos visto, mas sabíamos ambos que ela estava por ali.
A volta agora seria a minha volta do costume, decido ir ver uma pontinha de mato que costuma meter um ou outro pássaro nas entradas, esta época já lá tinha morto uma, o cão caçava ao seu ritmo, forte como se não houvesse mato, faz um rasto e pouco depois fica parado, o pássaro sai largo mas é abatida facilmente e cobrado com a alegria do costume, estava radiante, 2 pássaros no sapatinho.
Tive ainda um outro pássaro, uma velha conhecida que já foi parada e errada varias vezes, o cão desta vez parou-a por 2 vezes, por duas vezes que se ouvia o beeper interromper o soar do vento nos pinheiros, mas pelas duas vezes que quando lá chego o pássaro já não estava lá, a zona é fechada complicada de andar, não lhe meti os olhos em cima em nenhuma das vezes, fica para outra faena.
No caminho para o carro, vinha a pensar, pensamentos típicos de quem anda a gosto no campo e tem dois pássaros cobrados. Olhei para o cão e via-o correr com aquele galope alegre dele, feliz, mesmo feliz, com a felicidade de quem gosta do que faz, alheio ao frio, à chuva, ao tojo e terrenos difíceis, eu pensava no que leva alguém a levantar-se da cama numa noite fria e chuvosa para ir para o campo, sinceramente não sei explicar, talvez quem sinta o mesmo que eu me entenda, mas de certo muitos acham-me maluco, acham que um pássaro tão pequeno de bico cumprido não vale tanto esforço, mas enquanto sentir o latejar do coração nas mãos serradas que seguram a minha bela justaposta quando a adrenalina se apoderar de mim ao soar do beeper, irei para o campo como se fosse sempre uma abertura!

Bom Natal e votos de boas caçadas a todos.

1 comentário:

Janeca disse...

Olá Jorge!
No dia 20/12, a minha abertura este ano, tive uma história muito parecida. Duas cobradas e uma falhada, as três paradas pelos cães: uma pela Cuca, outra pelo Fellini e a última pelos dois (a Cuca parou e o Fellini fez o "patron"). O que é que um homem pode querer mais?

Um abraço e bom ano!