sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Diário de um Becadero. 2008/09 parte 4

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Galinholas fáceis não contam histórias.

4 Janeiro 2009

Há muito falado, há muito marcado, há muito esperado, foi assim com esta jornada! Convidado por um Amigo “Paulinho” para ir fazer com ele e mais uns amigos comuns, a abertura numa ZC no Algarve. A jornada era por mim esperada com muita expectativa, pois sabia das potencialidades da zona, sabia conscientemente que a zona era das melhores do país, mas também sabia que não seria fácil ter lances de sonho e algum abate. Isto parece estranho, dizer que a zona é das melhores do país e ao mesmo tempo dizer que não seria fácil ter uma captura, mas ouvia-se o numero 70, era o numero de inscritos para a abertura ás Galinholas, falava-se de caçadores do Norte, Porto e Braga, muita gente que vinha de longe de propósito para esta abertura, desta forma não se antevia uma jornada fácil, até que antes de mais a sorte ditava muito do sucesso da jornada, pois seriam sorteadas 8 zonas distintas, onde em cada uma delas 6 caçadores teriam vários Hectares para caçar e procurar a Bela Dama, portanto a sorte era logo no começo e tão cedo algo que todos procurávamos a quando do sorteio. Para mim pessoalmente, a zona que me calha-se em sorte era indiferente, não conhecia nenhuma das manchas, pelo que caçar na primeira ou na última era para mim igual, o mesmo não acontecia para os caçadores da zona, ou alguns de longe mas já conhecedores das zonas e onde certamente têm uma ou outra crença mais quente que gostariam de visitar.
Depois do sorteio matinal nas belas instalações da associação de caçadores, dirigimo-nos para o campo, o nosso grupo era constituído por 6 caçadores, por consenso dividimos a meio a zona que nos calhou, bem como o grupo, ficando assim compostos 2 grupos de 3 caçadores cada.
Desta vez levei a cadela, pois o meu trunfo que me costuma inventar Galinholas onde quer que vá, continuava a recuperar de uma operação complicada, tinha-lhe sido retirada uma pragana, bem como uma grande quantidade de tecido morto que a envolvia, a recuperação tem sido lenta e penosa, sendo assim caço com os outros cães. A Uva porquê? Porque eu não conhecia os terrenos, ao contrário da cadela que tinha naqueles terrenos muitas e muitas jornadas, muitas e muitas Galinholas paradas e cobradas com o antigo dono.
Começamos pelo lado direito da mancha, eu o Mário e o Primo dele, o Jorge. Umas franjas estreitas de pinhal com pouco mato eram o palco que nos esperava, pouco andamos até o Mário e o primo começarem a dar tiros a um ou outro pássaro, eu não gostava do que via, sentia-me ali mal, eles de verde não se viam dentro das manchas demasiado pequenas para 3 caçadores, sentia que caçar assim era perigoso, ninguém se via e um pássaro que sai-se rápido poderia despoletar ali um acidente, até mesmo os cães corriam perigo! Decidi então desviar-me e caçar sozinho, com calma, descontraído, desfrutando da paisagem e da cadela, lendo o terreno e os sinais da cadela de forma a ter uma jornada produtiva, pois ouviam-se tiros, o Paulinho e o seu grupo, tinham começado mal entraram na mancha, as coisas prometiam.
Não demorou a ver uma galinhola a atravessar uma lavrado fugida de uma saraivada de tiros do Mário e do primo, com uma mancha de bom aspecto no seu caminho, depreendi que fosse ali que ia pousar, a cadela dá sinal, mas a Galinhola fugida apressa-se a encastelar completamente tapada, dando-me apenas uma nesga para atirar, errei-a com apenas 1 disparo.
Tentei manter-me calmo e lá prossegui sozinho, pouco depois a Uva pega num rasto numa zona despida debaixo de uma mancha de pinheiros, e já na extrema fica parada, achei estranho, pois era demasiado despido, desmancha subitamente sem sair nada. Uma pequena fatia de pinheiros novos ali mesmo ao lado aguçava-me o instinto, teria de ter um pássaro, mal entro a cadela fica parada, o pássaro sai rapidamente, a arma prende-se no meu casaco e saem-me 2 tiros estúpidos, foi tudo tão rápido. Fiquei irritado, muito mesmo, engoli uns palavrões e felicitei a cadela, novamente lá fui em busca de uma nova mancha, pois ali caça-se de mancha em mancha, andando muito em terrenos de pasto e semeadas entre as manchas. Mais um pequeno aglomerado de pinheiros bravos, com algum mato de boas características, mas nada, nem um toque da cadela, à minha esquerda apresentava-se a uns escassos 2 metros dessa mancha um pequeno e denso bosque de pinheiros tão finos como o meu braço, pouco mais altos que eu, essa fatia não tinha mais de 5 metros de comprido por 3 de largo, com uma aberta por dentro, parecia uma ferradura feita em pinhos, diz-se que as ferraduras dão sorte, pois bem ali eu via a minha sorte mudar. A Uva vai por trás, entra e fica parada, eu cá fora espero que o pássaro sai-a, a cadela desfaz a mostra e segue no rasto até sair da mancha minúscula, já cá fora fica novamente parada, eu antevi o que ia suceder e entro na mancha, a Galinhola sai então completamente tapada, atiro para onde julguei que tinha saído, eu e a cadela expectantes olhámos um para o outro, como que perguntando com os olhos “caiu?” mas nenhum de nós sabia, aliás nenhum dos dois a vira sair, apenas a ouvira sair, de repente rompendo levemente do céu penas brancas caíam, o coração dispara e rapidamente grito à Uva, “cobraaaaa Uva, Cobra tá feridaaa!!!” a cadela sai e pouco depois vem com ela ainda viva na boca, aquele momento que me dá anos de vida, ajoelho-me e recebo de olhos vidrados o nosso troféu, extasiado felicito a cadela, que lance!
Bem, era hora de procurar mais um pássaro, procurar mais emoções, encontro-me então com Mário e o Jorge, trocamos umas breves palavras e fiquei a saber que já tinham uns belos pássaros errados e nenhuma abatida.
Pouco depois entro numa mancha que cheirava a pássaro, a cadela fica novamente parada, a Galinhola sai completamente tapada, apenas fiz um tiro como tinha feito à outra, mas desta vez a sorte não me acompanhou, um silvado enorme tinha ocultado o seu percurso. Com o coração na boca dei a volta ao silvado, a cadela numa extrema da mancha fica parada, sem esperar a Galinhola sai em direcção a um pinhal logo ao lado, não dando tempo de me acercar da cadela, faço dois tiros largos, mas nem lhe toco. Imaginei que ela estaria agora num pequeno aglomerado de sargaço na ponta do pinhal despido, com excepção daqueles 3 metros quadrados de sargaço, o Mário ali ao lado percebia o que eu imaginava, mas não, estava enganado o pássaro não estava ali, imaginei que tivesse então rodado para trás, mas para onde? Fizemos o pinhal pequeno, com não mais de 50 metros, ouço um Tiro do Mário, na outra ponta a Galinhola sai, estava fora da mancha, ele erra-a, o primo também, vejo as cadelas deles correrem na minha direcção, rapidamente olhei para cima e vi porque corriam, a Galinhola voava na minha direcção, viu-me e rodou, um único tiro e cai, cobrada pela Uva. Duas vezes parada e errada e acabei por abate-la de uma forma tão simples, ás vezes a caça tem destas simplicidades, as 2 paragens da Uva deram a esta Galinhola um pouco de história, pois o abate em si nada teve de belo.
Novamente afastei-me, procurando zonas que pudessem esconder uma Galinhola, vejo então uma mancha ao longe que poderia ter um pássaro, ficava fora do caminho que traçara, mas o aspecto, pelo menos de longe, prometia e valia a pena o desvio.
Assim que entro na mancha a cadela fica parada, nuns pinhos novos muito juntos com estevas pelo meio, rapidamente sai uma Galinhola, não dando tempo sequer para atirar. Apenas um pequeno pinhal ali ao lado era capaz de a esconder no seu intuito de fuga, a Uva em mostra novamente, eu bem posicionado esperava a saída da ave, mas antes disso a cadela desmancha e faz um rasto, ficando novamente parada quase no final do pinhal, agora já não estava tão bem posicionado e a Galinhola sai rapidamente, erro-a com 2 tiros, que nervos, não queria acreditar, 3 pássaros errados.
De caminho para o carro, atravesso um pinhal sombrio, de pinheiros muito juntos e finos, altos e sem nenhum tipo de vegetação entre eles, um chão completamente careca, apenas caruma fazia um tapete castanho incapaz de esconder uma Galinhola, a cadela numa guia lindíssima, e uma Galinhola a encastelar à minha esquerda, aquele barulho de bater de asas, “pá…pá…pá…” inconfundível, é o som de uma ave a vencer o seu próprio peso por ali a cima direita à copa das arvores, para elas devem ser infindáveis instantes, eu sinto isso, deu para tudo, um tiro centrado deitou-a por terra, cobrada novamente pela Uva.
Tinha os 3 pássaros e uma manhã inolvidável, a cadela encheu-me as medidas, esteve fantástica, segura, ligada, em Galinholas complicadas que já estão naqueles terrenos há mais de 1 mês e meio, pássaros que conhecem e dominam os terrenos onde habitam, que saem para onde querem e não para onde nós queremos, quase sempre tapadas em terrenos já por si dificílimos, são estes pássaros que nos fazem sonhar, são destes terrenos e destes lances que me tornam cada vez mais um Feliz Becadero.


Obrigado Paulinho!

5 comentários:

N.M.Canaverde disse...

Muitos parabens pelo belissimo blog e um obrigado por nos dar a conhecer tao maravilhosos relatos e detalhes daquilo que para quem nao sabe, nao é mais que uma verdadeira arte em todos os seus sentidos possiveis e imaginarios, a caça a galinhola.

Jorge Silva disse...

Obrigado pelas suas palavras, participe também no blog.

Anónimo disse...

Fico realmente feliz! Juro, não percebo nada de nada de caça às galinholas (aliás não percebo nada de nada de caça nenhuma, só sei que a minha cadela é a melhor!) mas seja como for a tua alegria e dedicação são contagiantes. A tua vida relatada de forma tão magnificamente bilhante enche-me de entusiasmo e fico tão feliz pela tua felicidade.Ainda que redutoramente não consiga perceber a arte, percebo o sentimento do artista!

Obrigada por partilhares.

Jorge Silva disse...

Ana para a próxima assina as mensagens!!! A tua cadela é a maior isso é verdade, tá gordaaaa, hehe.
Obrigado por perderes um tempinho a ler os meus devaneios cinegéticos.
Beijos.

Anónimo disse...

Ah, ok. tenho de assinar!
Ass: a dona mais orgulhosa!